Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


domingo, 25 de novembro de 2012

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Pode a morte ser sono, se a vida não é mais que sonho,
E se as cenas de êxtase passam qual espectros?
Os prazeres transitórios semelham visões,
Mas pensamentos a morte como a grande dor.






















Como é estranho o vagar do homem na terra

Em sua vida maldita não pode desvencilhar
O rude caminho; nem ousa sozinho entrever
Seu augúrio futuro que não é senão despertar.

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Poema: John Keats; A morte.

Arte: Alyssa Monks; Lula.

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sábado, 29 de setembro de 2012

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Não há amor perdido, nem se fingem milagres
Não reparto o destino que me expia em saudades...
E o grito ecoa profundo;
"Quero o meu mundo!"
O assalto recomeça, o espelho fascina
Sigo encoberto, o quebrando domina...
Mas a vida desalinha!
Sepulto a ruína, ressurjo em apreço,
E de novo, recomeço.


















Só quem se arrisca a ir longe demais
descobre o quão longe se pode ir.

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Poema: T.S.Elliot. Recomeçar.
Arte: Salvador Dalí. O nascimento de um novo homem, 1943.

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domingo, 2 de setembro de 2012

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Era o relógio de meu avô
e quando o ganhei de meu pai ele disse
Estou lhe dando o mausoléu
de toda esperança e todo desejo.



















Dou-lhe este relógio não para
que você se lembre do tempo,
mas para que você possa esquecê-lo
por um momento de vez em quando
e não gaste todo o seu fôlego
tentando conquistá-lo.

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Excerto: William Faulkner, O som e a fúria.
Arte: Edward Kienholz. O Restaurante, 1965.

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domingo, 12 de agosto de 2012

Primeiro, você tem nosso perfil?
Você usa olho de vidro, dentes postiços ou muleta, 
atadura ou gancho,
Peitos ou sexo de borracha,

Suturas mostrando faltar alguma coisa?
Não, não? Então
Como podemos lhe dar alguma coisa?
Pare de chorar.
Abra a sua mão.
Vazia? Vazia. Tome essa mão

A fim de enchê-la e disposta

A servir xícaras de chá e espantar enxaquecas
E fazer o que você mandar.
Casa com isso?
Tem garantia.

De que fechará seus olhinhos no final

E se dissolverá de aflição.
Fazemos novo estoque de sal.
Vejo que você está nu em pêlo.
Que tal este terno -

Preto e formal, até que não cai mal.

Casa com isso?
É à prova d'água, de estilhaço, à prova
De fogo e bombas no telhado.
Acredite, vão enterrá-lo com isso.


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Agora a sua cabeça, desculpe, é bem vazia.
Tenho o remédio para isso.
Vem cá, benzinho, saia já do armário.
Bem, o que você acha disso?
Branca como papel pode ser escrito

Mas em vinte e cinco anos será prata,

Em cinquenta, ouro.
Uma boneca de carne, onde quer que você olhe.
Sabe costurar, sabe cozinhar,
Sabe falar, falar, falar.

Funciona direito, não tem nenhum defeito.

Você tem um buraco, é uma compressa.
Você tem um olho, é uma imagem.
Meu garoto, é sua última chance.
Casa com isso, casa, casa com isso.

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Poema: Sylvia Plath, O candidato.

Arte: René Magritte, Homenagem à Mack Sennett, 1934.

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quinta-feira, 19 de julho de 2012

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A sós
para mim
e para ti também,
quer dizer: eu e tu,
quer dizer: nós.

Nós assim, 
sem ninguém...
Quando eu e tu
nos encontramos,
eu só, tu só,
de repente passamos
a ser nós,
e como sozinhos já não ficamos, 
ficamos a sós...


Eu e tu
a sós,
seja lá onde for, 
quer dizer: nós
e nosso amor...

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Poema: J.G. de Araujo Jorge. Definição, 1958.
Arte: Marc Chagall. A história de Qamar Zaman e da arte da esposa do joalheiro, 1948.

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quinta-feira, 21 de junho de 2012

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A solidão era eterna
E o silêncio inacabável.


Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.


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Arte: Gustav Klimt. Floresta de Faias, 1903.
Poema: Juan Ramón Jiménez, A solidão era eterna.


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domingo, 27 de maio de 2012

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E ele, evadindo-se tão prodigiosamente da sua velha carne encarquilhada, tornava-se cada vez mais feliz, cada vez mais inacessível. Cada vez mais imorredouro.


Ao morrer levava, sem dar conta disso, as mãos cheias de estrelas...

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Texto: Saint Exupéry. Cidadela.
Arte: Henri Matisse. O voo de Ícaro.

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quarta-feira, 9 de maio de 2012

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Deus ao mar o perigo e o abismo deu,


Mas nele é que espelhou o céu.

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Arte: René Magritte, o futuro das estátuas.
Verso: Fernando Pessoa, mar Português.

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terça-feira, 24 de abril de 2012

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Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com minha acessa antorcha e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
















que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

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Poema: Ferreira Gullar, um sorriso.
Arte: Tâmara de Lempicka, Adão e Eva.

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quarta-feira, 4 de abril de 2012

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A terra leva-nos por terra;


mas tu, mar,
levas-nos pelo céu.

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Poema: Juan Ramón Jiménez.
Arte: René Magritte.

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quinta-feira, 22 de março de 2012

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Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.



E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

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Poema: Alejandra Pizarnik, Festa.
Arte: Edward Hopper. Lado leste interior, 1922.

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domingo, 4 de março de 2012

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Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque vieste a recolher a tua imagem
porque és melhor que todas as tuas imagens
porque és linda desde o pé até a alma
porque és boa desde a alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça
porque és minha
porque te olho e morro
se não te olho amor
se não te olho


porque tu sempre existes onde quer que seja
porém existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que te amar amor
tenho que te amar
ainda que esta ferida doa como dois
ainda que busque e não te encontre
e ainda que
a noite pese e eu te tenha
e não

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Arte: Marc Chagall. O sonho de Paris, 1969.
Texto: Mário Benedetti. Coração couraça.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

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Gota
a gota
tomba o silêncio.
Condensa-se no telhado da mente
e cai por tanques de água abaixo.
Para sempre sozinho...
sozinho...
sozinho.



ouço o silêncio tombar e espalhar seus
círculos até os mais longínquos recantos.
Saciado e repleto, sólido na satisfação da meia-noite,
eu
a quem a solidão destrói
deixo que o silêncio tombe
gota a
gota.

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Excerto: Virgínia Woolf. As ondas, 1931.
Arte: Frank Benson. Dia de chuva, 1906.

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sábado, 21 de janeiro de 2012

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As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,



Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.

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Arte: Marc Chagall, Mãos.
Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen.

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

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Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

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Arte: Salvador Dalí. A desintegração da memória, 1954.
Poema: David Mourão-Ferreira. Ladainha dos póstumos natais, 1986.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

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Meu nome,
desenho a giz
no muro de tempo.



Choveu,
sumiu.

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Poema: Helena Kolody. Grafite, 1988.
Arte: Willem DeKooning. Mulher V, 1952.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

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Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.


A recordação é uma traição à natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

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Poema: Alberto Caeiro. Antes o voo da ave, XLIII.
Arte: Andrew Wyeth. Turkey Pond, 1944.

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domingo, 6 de novembro de 2011

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Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.



Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

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Poema: Ana Cristina César.
Arte: Toulouse Lautrec. Loie Fuller 1892.

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

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Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

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Poema: Cecília Meireles. Retrato.
Arte: Vincent VanGogh. Rosto de camponesa com touca de renda esverdeada, 1885.

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

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Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.


Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

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Poema: Manuel Bandeira. A estrela.
Arte: Andrew Wyeth. Mulher na porta.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

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Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera.
Tão clara como a fonte e como o dia.


Mas que eu não era EU não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim...e não me via!

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Poema: Florbela Espanca. Eu.
Arte: Norman Rockwell, Girl at her Mirror, 1954.

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

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Entre os mortos, num bombardeio ao amanhecer,
Havia um homem de cem anos.

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Texto: Dylan Thomas.
Fotografia: Ângelo Maciel.

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terça-feira, 6 de setembro de 2011

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A mão que assinou o papel derrubou uma cidade;
Cinco dedos soberanos tributaram a respiração,
Duplicaram a esfera dos mortos e reduziram um país à metade;
Esses cinco reis levaram um rei à morte.

A poderosa mão chega a um ombro arqueado,
As juntas dos dedos foram imobilizadas pelo gesso;
Uma pena de ganso pôs um fim ao crime
Que deu fim à troca de palavras.



A mão que assinou o tratado fez brotar a febre,
E cresceu a fome, e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que mantém o seu domínio
Sobre o homem por ter ele escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos, mas não aplacam
A ferida cicatrizada nem acariciam a fronte;
Há mãos que regem a piedade como outras o céu;
As mãos não têm lágrimas para derramar.

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Poema: Dylan Thomas, The hand that signed the paper.
Arte: John Rogers, Council of war.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

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Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,



são eternos como é a natureza.

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Poema: Pablo Neruda.
Arte: Edvard Munch, Lovers on the beach.

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domingo, 14 de agosto de 2011

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Meu pai sempre me prometeu
Que viveríamos na França
Íamos de barco pelo rio Sena
E eu gostaria de aprender a dançar.

Vivíamos em Ohio, e então
Ele trabalhou nas minas
Os sonhos dele eram como barcos
Sabíamos que seria navegar no tempo.


Minhas irmãs cresceram e foram embora
Para Denver e Cheyenne
Casaram-se com seus sonhos de adulto
Os liláses e os homens.

Eu fiquei para trás, o mais novo
ainda dançava sozinho.
Esperando, esperando que os sonhos do meu pai
um dia pudessem me levar para casa.

Eu vivo em Paris agora
Minhas crianças dançam e sonham
Ouvem modos de vida de um mineiro
Em palavras que nunca dizem.

Eu navego em minhas lembranças de casa
Como barcos cruzando o Sena
E vendo os olhos do meu pai
Assistindo o pôr do sol
Que se define nos olhos de meu pai.

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Arte: Edward H. Potthast

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Minha música não quer se bela
não quer ser má.
Minha música não quer nascer pronta,
Minha música não quer redimir mágoas.


Minha música quer estar além do gosto,
minha música quer ser de categoria nenhuma,
minha música quer só ser música.

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Letra: Adriana Calcanhotto, minha música.
Arte: Cândido Portinari, músico Clarinetista.

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domingo, 31 de julho de 2011

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Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma;
todo homem é um pedaço do continente, uma parte
de terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo
mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido
um promontório, ou perdido, ou perdido o solar de
um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer
homem diminui a mim, porque na humanidade me
encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar
por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

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Arte: Duy Huynh.
Poema: John Donne. Meditação 17.

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

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Minha cabeça cortada
Joguei na tua janela
Noite de lua
Janela aberta

Bate na parede
Perdendo dentes
Cai na cama
Pesada de pensamentos


Talvez te assustes
Talvez a contemples
Contra a lua
Buscando a cor de meus olhos

Talvez a uses
Como despertador
Sobre o criado-mudo
Não quero assustar-te
Peço apenas um tratamento condigno
Para essa cabeça súbita
De minha parte

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Poema: Paulo Leminski.
Arte: Edward Hopper, Boy & Moon.

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

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Quanto mais fecho os olhos,
melhor vejo...



Meu dia é noite quando estás ausente
e à noite eu vejo o sol
se estás presente.

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Poema: William Shakespeare, Soneto 35.
Arte: Marc Chagall, Couple with candles & white blossoms

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sábado, 2 de julho de 2011

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- Seu cabelo está cheiroso, Falei, aspirando o perfume...
- E o meu olho?, ela perguntou...



- O que tem seu olho?
- Também está cheiroso?
- Por que o olho estaria cheiroso?
- Entrou sabão nele, Ela explicou.

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Arte: Joaquim Sorolla, After Bath.
Texto: Sylvia Plath.

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domingo, 26 de junho de 2011

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Embora a morte e a vida se oponham uma a outra, como palavras que são, o certo é que só podes viver daquilo que te pode fazer morrer. E o que recusa a morte, recusa a vida.

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Texto: Saint Exupéry, Cidadela.
Arte: Adolphe Bouguereau, Garota defendendo-se de Eros, 1880.

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sábado, 18 de junho de 2011

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As coisas não querem mas ser vistas
por pessoas razoáveis:



Elas desejam ser olhadas de azul -
que nem criança que você olha de ave.

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Texto: Manoel de Barros.
Arte: René Magritte. O mundo belo, 1962.

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quarta-feira, 8 de junho de 2011


Adiantei consideravelmente no conhecimento da felicidade e passei a encará-la como problema no dia em que soube ver nela o fruto da escolha de um cerimonial criador de uma alma feliz e não um presente estéril de objetos vãos. Porque não é possível proporcionar a felicidade aos homens como provisão.

Mas nem por sombras acredito que possas ir buscar a tua felicidade à solidão, ao vazio, à nudez, que aliás podem-te levar ao desespero.

Embora a experiência me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior proporção nos desertos, nos mosteiros e no sacrifício do que entre os sedentários dos oásis férteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse à natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde os bens são em maior número, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto à natureza das suas alegrias: estas, efetivamente, parecem provir das coisas, quando resultam do sentido que essas coisas assumem em tal país ou em tal morada. Pode acontecer que eles, na abastança, se enganem com maior facilidade e façam circular mais vezes riquezas vãs. Como os homens do deserto ou do mosteiro não possuem nada, sabem muito bem de onde lhes vem as alegrias e lhes é assim mais fácil salvarem a própria fonte do seu fervor.

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Arte: Adolphe Bouguereau. Temptation, 1880.
Texto: Saint Exupéry. Cidadela.

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sábado, 28 de maio de 2011

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Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins...

Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim

E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim...




Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim

Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos Bandolins...

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Letra: Oswaldo Montenegro, Bandolins.
Arte: Pablo Picasso, Three Dancers, 1925.

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sábado, 21 de maio de 2011

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Entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta.

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Poema: Alice Ruiz
Arte: Henri Matisse, Woman Beside Water, 1905.

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domingo, 15 de maio de 2011

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O Amor toma banho de sol nos olhos dela,
O Amor percorre as meadas de suas madeixas,
O Amor se perde em cada um dos lábios dela
E mil beijos ali colhe e a li deixa;
Em cada parte dela, visível o Amor;
Mas, ah! não penetra o seu interior.

Lá dentro habitam os inimigos do Amor,
A malícia, a inconstância, a altiveza.
Assim a face da terra se enfeita em flor,
Em verdes vários e em tanta beleza,
Mas lá dentro estão o inferno e a escuridão,
Lá vivem os espíritos maus em danação.





Pois comigo, ai de mim, acontece o contrário:
A morte e a treva jazem em meus olhos em pranto,
Meu rosto pálido, em desespero, solitário,
É justamente o oposto do Amor, no entanto,
Ele, dentro de mim, como o tirano persa,
Mantém alta corte invisível, pois imersa.

Oh! toma meu coração, e então ficará
Teu íntimo com bom suprimento de amor,
E dá-me o teu, que está alegria tornará
Todo amorável meu eu exterior.
Mas que troca! Eu, revestido de feminina
Graça, e tu, interiormente, masculina.

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Poema: Abraham Cowley, A Troca.
Arte: Lasar Segall, Encontro, 1924.

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domingo, 8 de maio de 2011

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Sem fazer barulho abri a janela e sentei-me na cama, não ousava me mexer com medo que me ouvissem lá embaixo, lá fora às coisas também pareciam congeladas, paralisadas num propósito mútuo.



Nunca mais esses momentos serão possíveis para mim, mas ultimamente tenho sido muito hábil para captar, se ouvir com atenção, o som dos soluços que romperam quando me encontrei sozinho com mamãe, na realidade seu eco nunca cessou.

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Texto: Marcel Proust, Em busca do tempo perdido.
Arte: Edvard Munch, A mãe morta e a criança, 1900.

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

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Embora eu tenha de partir, eu te asseguro
Que em nossas almas não haverá separação.
Elas são uma, e, assim como bloco de ouro
Que é distendido em folha, juntas ficarão.

Ou se elas são duas, serão duas apenas
Como duas, as hastes gêmeas de um compasso:
Tu és a haste fixa, mas moves-te em verdade
Todas as vezes que a outra alma avança um passo.



E, enquanto a outra lá bem longe circunvaga,
Essa em seu centro, p'ra ela inclina-se depressa,
Solícita; e só se ergue de novo ereta
Quando a outra haste de sua viagem regressa.

Assim és tu p'ra mim, que, como haste oblíqua,
Obliquamente vago distante de ti;
Tua permanência faz perfeitos meus circuitos
E ajuda-me a voltar ao ponto de que parti.

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Poema: John Donne, A valediction: forbidding mourning.
Arte: Marc Chagall, Le Coq sur Paris.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

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De mel é o sabor das lembranças
trazidas de minhas andanças
pra enfeitar sua saudade
Eu trouxe canções e flores
e um paraíso de cores
pra pintar sua cidade.



O que me prendeu por aqui
foi seu sorriso franco
e esse doce no olhar
Eu vim pra demorar bem pouco menina
agora eu quero ficar.

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Poema: Zé Geraldo.
Arte: Antônio Mancini, young girl laughing.

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

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À esperança o meu relógio ofereci:
Dela uma âncora recebi.

Velho livro de orações dei-lhe de presente:
Retribuiu-me com uma lente.

Dei-lhe então um frasco de lágrimas antigas:
E ela, algumas verdes espigas.



Nada mais te trago, não aguento tua tardança -
O que eu queria era uma aliança.

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Arte: George Watts, Hope.
Poesia: George Herbert, Hope.

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terça-feira, 12 de abril de 2011

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Tudo mudou tão depressa em volta de nós: relações humanas, condições de trabalho, costumes...Até mesmo a nossa psicologia foi subvertida em suas bases mais íntimas. As noções de separação, ausência, distância, regresso, são realidades diferentes no seio de palavras que permaneceram as mesmas. Para apreender o mundo de hoje usamos uma linguagem que foi feita para o mundo de ontem, E a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza apenas porque corresponde melhor à nossa linguagem.

Cada progresso nos expulsou para um pouco mais longe ainda de hábitos que mal havíamos adquirido; na verdade somos emigrantes que ainda não fundaram a sua pátria.

Somos todos bárbaros novos que ainda se maravilham com seus novos brinquedos. Não tem outro sentido nossas corridas de avião. Este sobe mais alto, aquele corre mais depressa. Esquecemos por que o fazemos correr. A corrida, provisoriamente, fica mais importante que o seu próprio objetivo. E sempre é assim mesmo.

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Texto: Saint Exupéry, Terra dos homens.

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

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Quando acordei, a cidade falou.
Pássaros e relógios e campanários
Se alvoroçaram junto à multidão coleante,
O réptil corrompe numa chama
Os saqueadores e os ladrões do sono,
O mar da casa ao lado dispersou
As rãs e os demônios e a cigana,



Enquanto lá fora um homem, mergulhado
Até a cabeça em seu próprio sangue,
Degolava a manhã a navalhadas.

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Poema: Dylan Thomas, Quando acordei.
Arte: Candido Portinari, Painel Guerra.

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sábado, 2 de abril de 2011

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Nenhum amor atinge o seu mais alto grau
Enquanto a vista alheia teme, como um mal.



O amor é uma luz sempre crescente e constante;
Seu primeiro minuto após meio-dia é noite.

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Trecho: John Donne, preleção sobre a sombra.
Arte: Advard Munch, olhos nos olhos.

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segunda-feira, 28 de março de 2011

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Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.



Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

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Poema: Nelson Ascher
Arte: Govinder Nazran

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sexta-feira, 25 de março de 2011

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Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.



Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.


Poema: Oscar Wilde

Dedico à querida amiga Loli em seu aniversário.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

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Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.



Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

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Poema: Drummond de Andrade. Balada do amor.
Fotografia: Robert Doisneau, Hôtel de Ville.

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quinta-feira, 17 de março de 2011

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Lua
morta


Rua
torta

Tua
porta

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Poema: Cassiano Ricardo, Serenata Sintética.
Arte: Tarsila do Amaral, Lua.

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sábado, 12 de março de 2011

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Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como um beijo de um devasso.



Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa a Deus.
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Poema: Sylvia Plath, 40 Graus de Febre.
Arte: Tamara de Lempicka, Dormeuse.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

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Como um dia numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar.


Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar
Eu não estou indo embora
Tou só preparando a hora
De voltar.
De voltar.

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Letra: Caetano Veloso, Um Dia.
Arte: René Magritte, The Son of Man.

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