Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


domingo, 17 de maio de 2009



Cores

Teu azul,
Muito mais azul que o meu,
Sem pedir licença,
Entrou por minha janela branca
E azulou
Toda minha sala


Mas teu azul
Em nada combina
Com meus móveis vermelhos
Então eis a dúvida:
Pintar as paredes ou trocar meus móveis?
(Renata Pereira)

terça-feira, 7 de abril de 2009

Poema das Árvores


As árvores crescem sós.
E a sós florescem.

Começam por ser nada.
Pouco a poucose levantam do chão,
se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos,
e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas,
e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas,
vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores,
e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós,
a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem,
sem falarem.

Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se,
trespassam-se,fazem amor e ódio,
e vão à vida como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram,
não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós,
sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.

António Gedeão

quarta-feira, 4 de março de 2009

Quanto tempo?
Quanto tempo ainda?
Anos, dias, horas?
Quanto?

Quando penso nisso
como me bate o coração.
Meu país é vida
Quanto tempo ainda?
Quanto?

Eu amo tanto o tempo que me resta.
Quero rir, correr, chorar, falar,
e ver e crer, e beber, dançar,
gritar, comer, nadar,
saltar, desobedecer.

Eu não acabei, eu não acabei.
Voar, cantar, partir,
voltar a partir.
Sofrer, amar, eu amo tanto
o tempo que me resta.

Já não sei mais onde
nasci, nem quando.
Sei que não foi há muito
tempo...e que meu país é a vida.

Eu também sei que meu pai dizia...
"O tempo é como o seu pão,
guarde um pouco para amanhã".
Ainda tenho o pão,
ainda tenho tempo, mas, quanto?

Quero brincar ainda,
Quero rir às gargalhadas.
Quero chorar rios de lágrimas.
Quero beber barcos inteiros de
vinho, de Bordeaux e da Itália
Quero dançar, gritar, voar,
nadar em todos os oceanos.

Eu não acabei, eu não acabei.
Quero cantar,
Quero falar até ficar sem voz.
Eu amo tanto o tempo que me resta.
Quanto tempo?
Quanto tempo ainda?
Anos, dias, horas, quanto?

Quero as histórias, as viagens.
Tenho tanta gente a ver,
tantas imagens,
de crianças, de mulheres,
de grandes homens,
de pequenos homens,
engraçados, tristes,
muito inteligentes, bobos.

Que engraçado,
os bobos me rodeiam,
como as folhas entre as rosas.
Quanto tempo?
Quanto tempo ainda?
Anos, dias, horas, quanto?

não me importo, meu amor.
Quando a orquestra parar,
continuarei dançando,
Quando os aviões não mais
voarem, eu voarei sozinho.
Quando o tempo parar,
Eu a amarei ainda.
Eu não sei onde,
Eu não sei como,
mas eu ainda a amarei.
Está bem?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009



ESPELHO
Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.
(Sylvia Plath)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009






Só-corro.

Socorro.

Corro-só.

sábado, 31 de janeiro de 2009








Ser como uma árvore na paisagem,
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
Jorge Viegas
Imagem retirada do Google.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Antes da chuva, depois do sol.



Havia um tempo,
Em que chovia fora e dentro.

Hoje chove lá fora,
Aqui dentro o sol brilha forte,
E, mesmo que nuvens o encubram...
Ele permanece lá.

Brilhando,

Cantando,

Sorrindo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


De alguma forma, eu sei demais; e desse conhecimento,
depois que se foi contaminado, parece não haver recuperação.
Coetze, À espera dos Bárbaros.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Há um vencedor e um vencido. O vencedor, às vezes,
veste-se de um sorriso malicioso para humilhar o vencido,
porque os homens são assim.

Saint Exupéry, Cidadela.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009


Porque, tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o distribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer, é bom não a dividir. A árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu. É o que acontece contigo, meu rapaz. Deus faz-te nascer, faz-te crescer, enche-te sucessivamente de desejos, de pesares, de alegrias e de sofrimentos, de cóleras e de perdões, até que te faz ingressar de novo n’Ele. E, no entanto, tu nem és aquele estudante, nem aquele esposo, nem aquela criança, nem aquele velho. Tu és aquele que se cumpre. E, se sabes ver em ti um ramo que balança, bem pegado à oliveira, nos teus movimentos hás de gozar da eternidade. E tudo à tua volta se tornará eterno. Eterna a fonte que canta e soube matar a sede de teus pais, eterna a luz dos olhos quando a bem-amada te sorrir, eterno o frescor das noites. O tempo deixa de ser uma ampulheta que vai gastando a areia, e faz lembrar um ceifeiro que ata a sua gavela.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Quando pensamos no futuro

Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz. O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro. Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.

Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós. Estamos sempre além. O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora o tempo passe e já não sejamos mais.

Montaigne


Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
Saint Exupéry," O Pequeno Princípe."