Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

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Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.


A recordação é uma traição à natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

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Poema: Alberto Caeiro. Antes o voo da ave, XLIII.
Arte: Andrew Wyeth. Turkey Pond, 1944.

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26 comentários:

Leo disse...

O poema acima é de autoria de um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa, o mestre dos mestres, Alberto Caeiro. Diferente da personalidade conturbada de Pessoa, Caeiro era um homem rudimentar, que valorizava a natureza e a simplicidade das coisas. Fazia em seus poemas, negativas às questões cientificistas, filosóficas e existenciais, rejeitando dessa forma, a poesia simbolista da sua época, carregada de misticismo e metafísica. No livro "O Guardador de Rebanhos", do qual foi retirado o poema citado, expõe exatamente a intenção espontânea do eu-lírico, escrever com naturalidade, sempre comparando filósofos a loucos, pois aqueles tentam, na opinião de Caeiro, encontrar explicações inúteis sobre questões humanas e espirituais, já que o pensar só faz o homem chegar à inércia, idiotizado pelos questionamentos. Através dessa visão simplória, acredita unicamente naquilo que se vê, sendo assim, um poeta sensorial e objetivista, aceitando a realidade tal como ela é, e valorizando a intuição primitiva e impressionista, de encontro aos mistérios delineados pelo surreal, aparência distorcida apresentada pela arte simbolista. Fundido na natureza, a admira e se sente parte dela, num bucolismo nítido focado apenas no presente contínuo, desmerecendo o passado que já findou, e que por isso deve ser esquecido, como o tempo o esquecerá nos vapores do vento. Sendo um pastor a cuidar do rebanho, logo, tem um vocabulário limitado e pouco metafórico, sem a métrica da versificação usada pelos simbolistas e principalmente pelos parnasianistas, seus antecessores, o que lhe imprime uma poética libertária de estilismos em favor de uma sinceridade ingênua e bela.
No poema enxergamos todas essas máximas literárias, como nos primeiros versos, quando fala da constância da vida, num existir cronológico, usufruindo daquilo que é matéria possível de ser palpável pelos olhos e pelas mãos, desprovido de sentimentalidade e apego romântico, exemplificando o verso "A ave passa e esquece, e assim deve ser". Ultra realista, tem por isso, uma escrita antilírica, e com o pouco estudo, pode ser percebido nos versos o empobrecimento lexical típico de um pastor de ovelhas que tem como único objetivo existir e cumprir seu dever de comungar com a natureza o ciclo das estações, que se movimentam no mundo independente do pensamento do homem sobre elas. No último verso ele transmite limitação sobre as próprias defesas, exteriorizando uma réstia de humanismo que o faz pensar sobre o cosmos a rodeá-lo. Então, ele se despersonaliza reconstruindo-se mesclado à natureza, pedindo a ave para ensiná-lo a passar sem deixar rastros ilusórios que acabam se perdendo.
Completando, a riqueza dos heterônimos de Fernando Pessoa é indefinível, sendo as várias personalidades e o não confessionalismo subjetivista que faz dele um mistério sintetizado nos personagens. Ironicamente, tem como mestre dele e dos outros heterônimos, Alberto Caeiro, pois durante a sua vida foi atribulado perante conflitos existenciais, sempre interligado com o ocultismo, o misticismo e a eterna busca da criação. Logo, Pessoa desejava ser como a criatura a qual criara desligado das confusões alimentadas pela mente mas que não conseguiu concretizar, vencido pelo conhecimento e a humanização deturpada. Caeiro, um heterônimo autônomo, utopia de Pessoa, fragmento recortado da personalidade múltipla e desregrada do poeta.

Por: Fernanda Curcio

Liza Leal disse...

"O q foi não é nada, e lembrar é não ver".
Simplesmente encantada!

=)
bjo Leo!

Camila Márcia disse...

Eu simplesmente sou fascinada por Fenando Pessoa e vc esconheu um dos heteronimos dele que mais estimo O Caeiro, o poeta da narureza... fascina-me. O outro heretonimo de Pessoa que me encanta é Campos, fabuloso demais.

Enfim, que passe....

Beijos!
Saudades deste seu lugarrr Léo...

Déborah Arruda. disse...

Que lindo! Ser ave amenizaria um bocadinho de tanta coisa, né? Passar, ser livre, voar! Quisera.
Quanto tempo não vinha aqui te prestigiar, Leo. Sempre bonito demais teu canto.

Daniela disse...

O que foi ,se foi no momento em que nossos olhos já não podem mais alcançar.Por isso voa ave ,voa e leva...

Lindo!
Beijooos

nilson oliveira disse...

É, quem dera poder voar, ser passarinho, esquecer no vento todas as coisas que desagradam... Mas a vida é chão. A vida são pedras. E toda uma selva ao redor...

Karlinha Ferreira disse...

Simplesmente lindo...

Amo Alberto Caeiro...

Beijo grande

z i r i s disse...

Leo!

Que coisa mais linda isso. Deus! Quanta saudade daqui.

Ensina-me a passar...


Puxa, demorarei muito tempo para desvencilhar minhas retinas e sentidos desse poema.

Bjo hermano

Luna Sanchez disse...

Quem me dera ter asas!

Um beijo, Leo.

Néia Lambert disse...

Oi Leo, seu blog é, antes de mais nada, uma fonte de cultura. É bom estar por aqui.

Um abraço.

Van disse...

Ei Leo

e eu falando em lembranças hoje, recente e antigas.

acho boas as lembranças, nostalgia não, passado não, esses não servem para nada como diz Caieiro.
O grande Fernando Pessoa.

Um beijo

Lily disse...

Novamente, agradeço o comentário da Fernanda, que voce postou. Eh muito bom vir aqui, pois podemos encontrar novidades, esclarecimentos, pesquisas, artes plásticas e o sempre jardim bem cuidado. Voltarei mais vezes, para saborear as palavras da Fernanda.

Parabéns pelo post!

Beijos,

Suzana/LILY

Carina Rocha disse...

Que beleza, cada poema que aqui publica é uma fonte de inspiração, gosto e gosto.

'Lara Mello disse...

Lao!! Que saudades, demorei mas cheguei! =)

Tenho um amigo que curte Alberto Caeiro, vive falando da simplicidade dos textos dele, hoje eu entendi.. =**

Denise Portes disse...

Leozinho,
eu vivo aprendendo poesia com você.
Um beijo, com carinho
Denise

Sílc disse...

Querido Léo. Passei por aqui para te deixar um coração repleto de saudades. Tua Casa está um encanto.
"-Passa ave, passa, e ensina-me a passar!"
Com amor e carinho,
Sílvia

JAN disse...

GRANDE LÉO, SEU BLOG É UM TESOURO LITERÁRIO... VOCÊ ME ENSINA QUE NUNCA É TARDE PRA APRENDER.

ABRAÇÃO
JAN

Paula disse...

Lindo!!!

Aleatoriamente disse...

E tudo tão lindo com ele poetisando.
Leo querido meu, tua maneira de falar do poema é maravilhosa.
Amei tudinho aqui.

Beijo

Alê disse...

...Pouco do mundo teremos visto se não tivermos olhado os pássaros. Nem o imenso céu parece ter razão de ser se não for albergar o voo das aves...




Mia Couto


*Bjo Doce Leo!

Juliana Skwara disse...

Acho que já deu para perceber que sou daqueles tipo de pessoa que "ama" viajar! Eu gosto muito de ir para lugares que me proporcionem momentos lindos para a minha vida. Se eu pudesse iria sempre. Eu sinto falta da minha fase rock'n roll, eu reclamava muito, mas tinha esperança e a ingenuidade morava em meu coração. Quando se é adulto, se perde muita coisa boa
Volte sempre, abraços ;D

Bianca Morais disse...

Incrível...

Sabe, me lembrou um ditado que acabei de citar pra uma amiga blogueira: para ser feliz, basta ter boa saúde e péssima memória.

Certas coisas deixam marcas, enquanto outras desaparecem como se nunca tivessem existido.

Obrigada pela visita e desculpa a demora pra responder o comentário! rs

Boa semana e feliz natal adiantado! ;* beijo.

Janaina Cruz disse...

Sal Leo meu querido!

Eu andei sumida do Blog de todo mundo, inclusive do meu...

Andei tendo aulas de vou com a vida, isso me fez apagar as pegada do caminho que não pretendia mais pegar de volta... Cruzes! Rs
Tirando alguns pequenos machucados dos tombos do vou, eu to bem, muito feliz, e a vista daqui de cima é perfeita!!! Rsrsr

Se tiver facebook me adiciona, vou gostar de te ver por lá.

Abraços mil

Manuella Monte Santo disse...

"Lembrar é não viver", engraçado que tinha uma mania de sentir saudades de coisas tão bobas ou remoer lembranças tristes.
Dá mesmo essa sensação de estagnação.


Beijo

Cristina Lira disse...

Sai doce na alma essas palavras....Bom demais de ler e sentir.

Bjos no coração meu amigo, tenha um otimo dia.

disse...

interessante... ja conhecia...
lembrei das aulas de literatura no tempo do colegio, amava!
beijos...