Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


terça-feira, 24 de abril de 2012

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Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com minha acessa antorcha e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
















que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

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Poema: Ferreira Gullar, um sorriso.
Arte: Tâmara de Lempicka, Adão e Eva.

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20 comentários:

Leo disse...

Mesmo quem não tem contato frequente com a Literatura Brasileira, já ouviu falar ou leu algum poema de Ferreira Gullar, escritor maranhense de importância mundial e motivo de orgulho para o Brasil. Tido como o poeta vivo mais importante do nosso país, é ainda, em seus 81 anos de idade, um homem ativo para com a arte literária, modificando e moldando a sua escrita conforme o seu próprio contexto de vida e de mundo, impedindo que ela se torne um fazer poético sem poesia, arcaico e raso, de sentimentos foscos e nulos. Para ele, a poesia é uma energia sobrenatural rara, que quando resolve aparecer, espanta e surpreende os sentidos do poeta submergido nos movimentos do signo, até que o transe passa e deixa a marca emotiva de um além-mundo, na qual literariamente, as palavras sólidas aos poucos amolecidas, transformam o sentir invisível em símbolos reais do não-objeto plasmado em sua alma experimentada de sensações, apunhalada pelo eminente improviso da construção do poema.
Sua literariedade é singular, pois em sua jornada de escritor possui inúmeras características, às vezes deixadas de lado e retomadas em outro momento, mesclando-as sempre a um equilíbrio entre a racionalidade dos concretistas e a imaginação imprevisível cheia de sensibilidade. Foi, aliás, pelo excesso de razão, que abandonou o movimento concretista postulado em "A luta corporal"(1954) e iniciou com a obra intitulada "Poemas" em 1958, outra nova ideologia nas letras, o neoconcretismo, almejando galgar um vanguardismo não apenas visual, mas também marcado pelo uso da verbalização, esquecida pela tendência modernista.
Se em "Um pouco acima do chão" (1949) - primeiro livro do autor - percebe-se um estilo parnasianista em plena época de desabrochamento de culturas diversificadas, em 1961 foge a todas essas limitações formalistas, que para ele já estavam esgotadas naquele instante, buscando desdobrar-se numa atitude político-social através da literatura de cordel, engajado a lutar por seus direitos de cidadão e por seu povo, compondo versos os quais ilustravam a realidade massiva da desigualdade, portanto, dando voz àqueles que não tinham força para falar. O que lhe causou muitos problemas, levando-o ao exílio por diversos países desde 1971 até 1977, período em que mais fulgurou a ditadura militar, tendo que refugiar-se na criação de um pseudônimo, sobretudo para poder escrever à jornais no Brasil. Eis Frederico Marques, o nosso Gullar. Mas foi justamente nestes anos que conseguiu transpor a sua obra-prima, "O poema sujo" (1976), lançado por Vinicius de Moraes aqui no Brasil em fita cassete na ausência de Gullar, que ainda permanecia em Buenos Aires. Uma ode à sua terra no exílio. Todos os escritores são assim. Parece que a saudade é gestora da poesia.

Continua...

Leo disse...

Ferreira Gullar, hoje, contemporâneo para nós, mas sem perder o radicalismo sempre presente no seu olhar abstrato e contextualizado, condensa-se em "Muitas Vozes" (1999, livro de poesias sob as diversas "vozes" por onde o escritor caminhou; correntes literárias desacorrentadas por outras, na tentativa de renovar-se. Um autor heterogêneo acima de tudo. Merece aplausos.) e em muito mais outras que ainda surgirão na sua ampla biografia, citadas aqui numa pequena partícula diante da grandiosidade do poeta.
Sobre a estrutura estilística em Gullar, pode-se ressaltar a despreocupação com a sintaxe verbal na falta de pontuação, a fim de fundir imagens numa unidade de pensamentos fluida, dissolvendo as fronteiras interiores da mente do eu-lírico, a paranomásia, que objetiva a empregar palavras com sonoridade parecida. Outro recurso auditivo é o jogo com vogais e consoantes usados para enfatizar significados mediante as vogais abertas ou fechadas, unindo sensibilidade ao som das palavras. Que podem ser claras. Ou escuras. Percebam só.
Em "Um sorriso", poema escolhido para análise, radical acima de tudo, desperta o lado instintivo do ser humano, e principalmente, do homem, que animalesco em seu realismo bruto, cega-se desta existência para habitar a nua inconsciência desnorteante no noturno raciocínio das suas capacidades. Mas o eu-lírico ainda sente. Sente e cheira. Guia-se pelo tempero exalado da urina, captado pelo excelente olfato mamífero o qual inclina para baixo todos os seus frêmitos. Mas eis que de repente, num milímetro momento, nasce no pensamento - a diferença entre os outros animais - a visão que clareia a mente e rumo ao alto mostra a doçura de um nascer de sorriso. O homem acorda e consciente de amor sobe aos ares, pois que ama. Do contrário, seria apenas “chãO escUrO” - de sons e sentimentos fechados, pisados - ilógico depois de conectar-se a labirintos coexistentes neste e num outro de dimensões sem métricas. Portanto, é no coito esvoaçante que o eu-lírico esvai-se abraçado no balão colorido, o sorriso. Eu-lírico transcendental. Não cabe nas páginas mais passivas de um poema concretista.

Por: Fernanda Curcio.

Camila Márcia disse...

Sedutor... Eu adoro literatura brasileira querida. \õ/ Ótima escolha.

Bjs.

Tai Ribeiro disse...

Adorei!

RosaMaria disse...

Belissimo poema, não conheço muitos trabalhos do Ferreira Gullar, mas o pouco que conheço é o suficiente para admira-lo.

Se cuida!

disse...

ja ouvi falar de Ferreira Gullar sim... apesar de hj estar na area de exatas, sempre dei muito valor a literatura...

achei o poema intenso...
beijos

Liza Leal disse...

Sensual...
Profundo.
Bela literatura, Leo!

bjo
=)

Fernanda Curcio e Leonardo Macedo disse...

Ferreira Gullar em um poema tão intenso e romântico, e você Leo, meu querido, é o meu sorriso.;D

Beijos!!

Karlinha Ferreira disse...

Excitante e fascinante...

Bom ver em blogs o quanto o Brasil tem a oferecer...Simplesmente motivo de orgulho.

Beijo grande Leozinho, saudades de vc...

Sandra Botelho disse...

Simplesmente lindo...Como tudo que você escreve poeta. parabens pela sensibilidade e delicadeza com as palavras. Bjos achocolatados

rejane disse...

oi? vou passando rapinho para dizer que:
adoro literatura seja brasileira ou não!
rs
bjos para vc!

Marcelo R. Rezende disse...

Adoro poesia lasciva, adoro mesmo. E tendo sendo escrita pelo Gullar, fica melhor ainda.
Conheço pouca coisa dele, mas tudo que li e que o vi dizendo, me faz amá-lo cada vez mais.

Beijo.

Fernanda Curcio e Leonardo Macedo disse...

Quando escrevi o texto para você sobre Gullar, lembrei-me sobre o fazer poético que tanto você me diz.Estar conectado.Sentir o poema e deixá-lo agir.

Beijos meu menino!!

Tati Lemos disse...

lindo lindo, não conhecia o poeta, mas o poema muito lindo Leo, boa escolhida.

Beijo

Alê disse...

Quando... Quando leio algo assim, flutuo!


Lindo texto,


Cheio de vontades,



Bjkas

Alê disse...

Lindo!

Cheio de vontades, de desejo, e de urgências,


Quando leio algo assim, 'flutuo'


Bjkas Leo!

Luzia Medeiros disse...

Que poema belo. Adoro a literatura brasileira.

Beijos, seguindo aqui.

http://luzia-medeiros.blogspot.com.br/

Be Lins disse...

Você acredita que ainda me surpreendo com a força de um sorriso?

Falando nisso,
você é um semeador de sorrisos.
Ou o mago deles.

Beijo, Leozinho.

Lily disse...

Leo,

Ótima escolha! Gosto de ler poemas fortes, onde você dá um pulo, da crueza (do corpo ou do espírito) para a leveza da alma. Eu nada sei do poeta, é claro que já devo ter lido poemas dele, mas não me deixei fixar, por muitas vezes, sou dispersiva.

E a Fernanda? Ah, meu Deus, o que falar? Eu amo os trabalhos dela, que ela nos entrega de bandeja. Volto ao passado, para um tempo antigo, onde eu lia muito José de Alencar e Machado de Assis. Eu adorava e ainda adoro ler textos onde o escritor é desnudado, analisado, objeto de estudos sérios.

Beijos ao dois!

Suzana Guimarães - Lily

Bruna disse...

Embora não te deixe comentários com frquência, sempre leio suas postagens, e fico boquiaberta com a beleza dos poemas e das imgens que são colocadas aqui, com uma combinação entre ambas que é exata.