Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


terça-feira, 25 de outubro de 2011

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Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

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Poema: Cecília Meireles. Retrato.
Arte: Vincent VanGogh. Rosto de camponesa com touca de renda esverdeada, 1885.

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38 comentários:

Leo disse...

O poema intitulado "Retrato", da poetisa modernista Cecília Meireles, é em todas as estrofes prenhe de sensibilidade e indagações sobre a vida e a passagem do tempo. O eu-lírico inicialmente usa de termos gradativos para dar ênfase ao seu rosto estático e mórbido. Podemos perceber a gradação no seguinte trecho: "assim calmo, assim triste, assim magro". É interessante o uso repetitivo da expressão "assim" no poema, dando um ar calmo e melancólico, prolongando a lentidão do verso. Ao longo da poesia é visto um clima de perplexidade, um olhar para um passado já inexistente, uma juventude não mais palpável. Ele exprime essa característica lânguida através dos momentos arrastados em todas as estrofes e, na última, ela ao se procurar no espelho trata da efemeridade da vida, do quão breve ela é, e como nunca a pensamos como o fim de tudo, quando não existe mais nada, apenas a fatídica e inevitável morte, quieta e solitária. Usa também de muitas anáforas, uma delas para negar a passagem do tempo e a realidade, tentando fugir da real situação vigente, como na repetição nos versos "Eu não tinha", dando movimento ao poema, transição da juventude para a velhice, que faz o eu-lírico se perguntar, descrente no final, em que espelho estava perdido.
Agora, definindo Cecília resumidamente, apesar de ter sido poetisa da Geração de 22, ela decidiu marginalizar as tendências literárias da época e criar sua própria arte, ou seja, ao mesmo tempo que seguiu a corrente modernista, retomou inúmeras características simbolistas, que podem facilmente serem vistas no poema "Retrato", por exemplo. Os poetas simbolistas usam frequentemente ideias sensoriais representada pela figura denominada sinestesia, exemplificando, quando no 3º verso a poetisa insere as metáforas "olhos tão vazios", "lábio tão amargo". Outras duas características é a constante presença de assonâncias e aliterações, pelo uso respectivo de vogais e consoantes repetidas nos versos, com o intuito de oferecer maior musicalidade e um eco prolongado, qualidade dos simbolistas também retomada por Cecília Meireles.
Terminando, num misto de construção e reconstrução literária, o poema nos faz questionar nossas vidas, nossos anseios de uma vida passageira de uma forma crua e lírica, fazendo imaginar por vezes nossa imagem eternizada - após nossa partida - em cima de uma mesa como um objeto decorativo, num antigo e esquecido "Retrato".

Por: Fernanda Curcio.

Gisa disse...

É um poema que eu gosto muito, mas ao mesmo tempo me traz muita angústia pela dureza e realidade das palavras.
Um grande bj

OceanoAzul.Sonhos disse...

Leo, sempre gostei muito deste poema de Cecília Meireles, encontro sempre um pouco de mim.
Obrigada por relembrares.


Um abraço
oa.s

Carina Rocha disse...

Poema magnifico!
Imagens sempre muito descritivas,
parabéns!

Alê disse...

Não eu não tinha...

Mas tudo que passei trouxe-me até a minha verdadeira face...


Leo, tá lindo!


Bjka

Manuella Monte Santo disse...

Nunca me tiraram da cabeça que esses versos são melancólicos como uma reflexão daquilo que se perde no tempo: beleza, vigor, gosto de viver.
É um amadureciemnto um tanto azedo e triste.


Abraço

Michele P. disse...

Leo

Este poema é lindo e triste ao mesmo tempo.

PS: Por falar em retrato, gostei do novo. :)

Boa semana!
Bjs

Ana Karina Bucciarelli disse...

Mas é no amargo da vida que a beleza nasce. A luz aflora onde nenhum sol brilha.

Esse poema, essa imagem. Esse menino que sabe combinar as coisas.

Patrícia disse...

Lindo... mesmo com tanta "dureza".

Daniela disse...

isso acontece com frequência , a vida parece que brinca com a gente , não somos dono de nada , nem de nós mesmo e não saberemos como vamos ficar daqui a um tempo com tantas cicatrizes que a vida nos deixa...

Lindo Léo , sempre coisas lindas aqui.

Beijo

nilson oliveira disse...

Bom, Léo, depois da aula ali em cima, com a dissecação do poema, sobrou pouco para dizer. Mas para sentir sempre há espaço. E o sentimento da poetisa, o sentimento de quem lê, é o que nos dá a certeza do valor das palavras, da beleza e força das palavras. E que bom que podemos expressar sentimentos como o pintor que pincela cores mágicas numa obra inesquecível.

É sempre bom passar por aqui.
Abraços, amigo!

(O trecho que está em seu perfil, de Yeats. Acho que tem um filme que apresenta esse belo trecho. O filme trata da erotomanía... mas não lembro exatamente o nome do filme. Conhece?)

Suzi Montenegro disse...

Lindo poema, Leozinho!

A realidade cruel da vida.

Gostei muito do comentário da menina acima:

'Não eu não tinha...

Mas tudo que passei trouxe-me até a minha verdadeira face...'

Passamos pelos gozos e dissabores da vida, para no fim, descobrirmos nossa verdadeira face. (eu não quero descobrir a minha)

Não poderia deixar de citar o 'meu' Montenegro que combina bem com o poema:

'Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?'

Bem que eu gostaria de responder: na foto passada, mas a verdade, é que sempre é no espelho de agora.

=(

Aleatoriamente disse...

Ficou lindo tua escolha.
Nos olhos, o brilho de ler essa maravilhosa poetisa.
No coração um acalantar, é como se a sensibilidade do poema ganhasse rumos em vários peitos.

Leo meu amdo amigo, um beijo nesse coração poético teu.

Beijinho

Liza Leal disse...

Adoro visitar teu canteiro reluzente!

bjo, Leo!
=)

'Lara Mello disse...

A Cecília nos descreve ao longo do tempo..
E você Leo? Como tá? Saudades! =**

Marcelo R. Rezende disse...

Nossa, até hoje, o que mais me tocou, o que mais me fez pensar. Não por não ter entendido, mas pela necessidade de refletir após lê-lo.

Muito obrigado por ter feito um blog tão indispensável.

Naia Mello disse...

A gente muda que nem percebe. A gente nunca se conhece 100%.

Pipa. A Pipa dos Ventos disse...

Esse aperto que tenho é só lembrança de um tempo que não mais me pertence. Agora sou eu e meu rebanho a subir pela encosta do teu sonho.

Van disse...

Leo, lindeza!

Sua natureza poética nos encanta sempre com estes maravilhosos posts.

A vida cobrando o seu preço que pagamos compulsoriamente em rugas e alquebras.

Adorei a aula no texto de Fernando Curcio.

Eu queria conhecer sobre literatura, quem sabe fazer algum curso um dia?

Um beijo!

Adriana Karnal disse...

Cecília se perde nos espelhos,ela reduz-se ao nada.Poeta do infinito. Cecília mora em mim.Legal tudo por aqui.

Maíra Souza disse...

Lindo lindo...
Tinha um pedaço deste. Mas só agora li por completo! Cecília é linda também!
Ótima semana moço! =*

Tati Lemos disse...

Leo, essa semana mesmo estudei ele na aula de literatura e estávamos indagados se ele fala do tempo, que ela está ficando velha e triste, mas ao ceto não sabe-se dizer, pois esses poemas tem que ser interpretados por nós mesmos.

Beijo guri, saudades grandes de ti

JAN disse...

LEO!
ESSE POEMA RETRATA, DE MANEIRA SUAVE, OS EFEITOS DO TEMPO E DA VIDA NO SER HUMANO.
NÃO CHEGA A SER TRISTE, MAS É BASTANTE REALISTA.

TODOS FICARÃO ASSIM... ACHO QUE EU ATÉ JÁ FIQUEI;-)

UM BEIJO GRANDE
JAN

Paula disse...

Obrigada pela visita ao meu cantinho! Muito lindo esse poema!
Uma boa semana para você!
Abraços,
Paula

nilson oliveira disse...

Amigo Léo, pelo jeito você lida melhor com os sonhos do que eu. É com saber pintar com eles. Sobre o filme, pesquisei no sabe tudo Google e descobri que chama-se "À la folie... pas du tout". Um ótimo filme francês. E realmente trata da erotomania. Assista que vale a pena. Se achar apropriado, claro.

Sempre aprecio suas visitas.

Abraços,

Nilson

Poupée Amélie™ disse...

Leo, o tempo passa, varre juventude, superficialidades. Traz idade, rugas, maturidade. O tempo passa, a gente fica. O tempo continua. E leva e traz. Ele nunca morre.
Bisou.

Denise Portes disse...

Leo,
Tão lindo e triste esse poema, amo Cecília Meireles. Desculpa a minha ausência Leozinho, a vida anda muito corrida e eu ando passeando pouco pelos blogs, mas você faz parte dos meus encontros de alma. Gosto muito de você e desse espaço.
Um beijo
Denise

Tonha_farias disse...

Olá,boa tarde!
Leo,lindo poema de Cecília."..Em que espelho ficou perdida
a minha face?"..é uma busca constante.
Teu blog é muito bacana.
Tonha.

Aleatoriamente disse...

Leo amado.
É sempre uma alegria te ter lá no cantinho (blog).
Amigos sempre nos deixam saudades, e você é inesquecível.
Quanto a Van e eu em parceria é até uma boa ideia, quem sabe não fazemos mesmo?
Eu iria amar, a adoro!

Beijinho moço.

Van disse...

Oi Leozinho!

Adorei a sua sugestão da parceria com a Fernanda, vamos conversar sobre isso, pra mim será uma honra dividir a construção de um texto com ela, menina linda que admiro tanto.

Um beijo, Leo!

*Mi§§ §impatia* disse...

Seu blog continua muito lindo, Leo. Parabéns.
Beijos.

Luna Sanchez disse...

O tempo pode ser aliado ou rival, depende de como o tratamos também.

Lindo, Leo.

Lindo Leo.

;)

Um beijo.

Mônica Bif disse...

Oi Leo. Chegando agora no seu Blog, amei o seu espaço, conheci através do Blog Eterno da Néia. Amo quem, assim como eu, tem paixão pelas letras. Esse poema me fez lembrar da triste condição do ser humano, hora jovem e feliz, hora triste, doente e no final da vida. Lembra-nos que a vida passa rápido demais... Ainda esses dias estava refletindo sobre isso, lembrando dos meus dias na casa do meu avô falecido este ano, dias felizes, saudáveis, almoços de domingo com a família reunida, das brincadeiras de criança, das estórias contadas ao pé do fogão á lenha da minha vó, Rsss... coisas boas de um tempo bom que não volta mais... Lembro da minha outra vó, hoje hospitalizada há 3 meses devido a uma grave enfermidade, de quando passeávamos juntas na beira-mar nas férias de verão que passávamos juntas, de quando podia ouvir sua voz, de quando podia vê-la caminhando, cuidando do seu jardim... A vida é tão preciosa... Precisamos aprender a valorizá-la mais, principalmente esses momentos, eles são importantes demais!!! Abraço, sucesso pra vc!!!!

Juliana Skwara disse...

Assim que vi a foto pensei em Vangogh, né que acertei rs!
Muito lindo, Cecília é uma das maiores <3

Michele Santti disse...

Leo, querido,
Tarefa difícil esse mês. Vou ter que escolher uma escrita dentre as muitas belas no meu vicinal. Então, quem sabe você poderia me ajudar e enviar para o e-mail ‘michelesantti@gmail.com’ o teu fragmento predileto.
Fiquei lisonjeada quando o querido QUIM postou minha escrita em seu blog. Assim, decidi adotar a ideia e de uma forma honrosa, postar os autores mais próximos: os blogueiros, meus colegas avatares.
Não esquece de assinar o e-mail com o nome do seu Blog.
Beijos e ótima semana,
Mih

disse...

que poema mais lindooo

adorei.

MJ FALCÃO disse...

Lindo, Léo! O poema e a ilustração! Grande poetisa Cecília Meireles. Pouco falada por cá...
Abraço

Mara Ribeiro disse...

Espelho...este amigo que teima em nos monstrar as verdades que muitas vezes tentamos esconder.

Bjo no coração.



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