Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

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Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?

Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam
Pois lá nada retorna à sua forma

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar






















E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que doi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós

Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

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Poema: T.S.Eliot. Quarta-Feira de Cinzas, parte 1.
Arte: Andrew Wyeth. De volta, 1984

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3 comentários:

Leo disse...

"O poeta se interessou cada vez mais no problema das relações entre
as aparências materiais e a realidade espiritual. Fruto disso foi em 1930 o pequeno poema Quarta-feira de cinza (Ash-Wednesday), no
que predominam motivos de purificação e redenção na dúvida entre um estado de ânimo sereno e resignado atingido só as vezes e as
reaparições de uma angústia de incerteza e debate; trata-se, em essência, da lamentação por uma fé ainda imperfeita, mas também, ao mesmo tempo, da tendência a "elaborar um pouco de que se alegrar".

Fonte: Universia.

Marília Felix disse...

A alegria me pegou pelo braço e trouxe-me até aqui.

Que saudade!

Abraceijos!

Bruna disse...

Eu fico boba ainda com a sua forma de casar a arte com o poema.
Léo, eu vim te pedir, em especial, pra não sumir por tanto tempo. Eu sinto falta das suas postagens, embora eu não comente todas. Abraços.