Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Conheci um velho jardineiro que a toda hora me falava num amigo dele. Os dois tinham vivido durante muito tempo como irmãos, antes que a vida os separasse. Tinham bebido juntos o chá da tarde, tinham celebrado as mesmas festas, tinham-se procurado um ao outro para pedirem alguns conselhos ou fazerem confidências. Que, bem vistas as coisas, um pouco tinham a dizer. Até os viam passear, depois de acabado o trabalho, sem pronunciarem uma só palavra. Limitava-se a olhar as flores, os jardins, o céu e as árvores. Mas, se um deles meneava a cabeça e apalpava entre os dedos alguma planta, o outro debruçava-se por sua vez e meneava também a sua. Acabavam de reconhecer o rasto da lagarta. E as flores abertas proporcionavam a qualquer deles o mesmo prazer.

Ora, aconteceu que um mercador contratou um dos dois e o associou por algumas semanas à sua caravana. Mas os ladrões de caravanas e depois as voltas que a vida dá e as guerras entre os impérios e as tempestades e os naufrágios e os lutos e as ruínas como uma pipa levada e trazida pelo mar, empurrando-o de jardim para jardim até aos confins do mundo.

Ora, o meu jardineiro, depois de uma velhice em silêncio , recebeu um dia uma carta do amigo. Sabe Deus quantos anos ela tinha navegado. Sabe Deus que diligências, que cavaleiros, que navios, que caravanas, a tinham pouco a pouco encaminhado, com essa mesma obstinação das milhares de ondas do mar, até ao seu jardim. E, nessa manhã, como ele resplandecia de felicidade e a queria partilhar, pediu-me para ler, como se pede pra ler um poema, a carta que tinha recebido. Ficou-se a ler no meu rosto a emoção da leitura. A verdade é que eram só algumas palavras, porque os jardineiros sempre tinham tido mais habilidade pára cavar do que para escrever. Só consegui ler: "Hoje de manhã, podei as minhas roseiras...". Aquilo me fez meditar sobre o essencial, que sempre me pareceu informulável. E meneei também a cabeça, como eles teriam feito.

Daí em diante, nunca mais o meu jardineiro havia de saber o que é o repouso. Poderias tê-lo ouvido informar-se da geografia, dos correios, das caravanas e das guerras entre os impérios. Três anos mais tarde, chegou por acaso o dia de eu mandar qualquer embaixada ao outro lado da terra. Mandei chamar o meu jardineiro: "se quiseres, podes escrever ao teu amigo." As minhas árvores sofreram um pouco com isso e também os legumes da horta e houve festa entre as lagartas, porque ele passava o dia em casa gatafunhando, rasurando, recomeçando a tarefa, tirando a língua de fora como uma criança debruçada sobre o trabalho. Mas descobria qualquer coisa de urgente a dizer, como que sentia a necessidade de se transportar todo ele, na sua verdade, para a casa do amigo. Precisava construir a sua própria ponte sobre o abismo, alcançar a outra parte de si próprio através do espaço e do tempo. Precisava dizer o seu amor. Por fim, todo corado, veio-me submeter à apreciação a sua resposta e perscrutar outra vez ainda no meu rosto um reflexo da alegriaque havia de iluminar o destinatário. O que ele queria era experimentar em mim o poder das suas confidências. Afinal, apenas confiava ao amigo, na sua escrita aplicada e desajeitada, como que uma oração muito convicta, mas de palavras humildes: "Hoje de manhã, também podei as minhas roseiras...". Na verdade, era o mais importante que ele podia dar a conhecer:(...)

Após a leitura, permaneci calado, meditando sobre o essencial, que eu ia compreendendo cada vez melhor. É que eles, sem o saber, estavam afinal a homenagear-te: era em ti, Senhor, que eles vinham a encontrar, para além das roseiras.

Saint Exupéry

*

23 comentários:

Leo disse...

Hoje pela manhã, também podei as minhas roseiras. :)

Winny Trindade disse...

Leo, ontem pela manhã podei as minhas roseiras.

Abraço-te.

Poupée Amélie™ disse...

Acabo de podar as minhas roseiras.
BeijO* Leo!

Ah! Quanto à sua pergunta: não é o Centro Cultural. é a Biblioteca São Paulo, no Carandiru.
Outro BeijO*!

'Lara Mello disse...

Hoje pela manhã podei..E espero podar sempre!

Walquiria disse...

"Precisava dizer o seu amor."

apenas isso...




bjs doces

Cadinho RoCo disse...

Podar as roseiras não é ato qualquer quando sentimos nelas o nosso viver, ou em nos o viver delas.
Cadinho RoCo

Lívia Azzi disse...

Ah!! Eu já li isso antes...

E gostei mais do abismo.

Um beijo!

*Mi§§ §impatia* disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
*Mi§§ §impatia* disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Franck disse...

Terminei de ler o texto e fui até o meu jardim, aspirei minhas rosas e vi que faz tanto tempo que elas são podadas...
Uma boa semana! Abçs!

Franck disse...

PS: Que elas NÃO são podadas!

Ana Agarriberri disse...

E o post faz mesmo a gente olhar para nossas rozeiras. E lembrar vez e outra de podá-las. Para que a vida siga como deve. Lindo. Sempre bom te ter por lá. Beeejo,beejo.

EU SOU NEGUINHA disse...

Menino belo texto...
Ainda não podei algumas,mas chego lá
Nega

Noite em Claro disse...

Adorei o blog e o texto..

Estou também à procura da minha tesoura, quem sabe começo a poda logo...


Visite meu blog também!

www.ascronicasnoturnas.blogspot.com

Walquiria disse...

Sinto como parte dessa roseira...

E hj, diante dos momentos vivenciados, sinto que perdi algumas pétalas, um pouco da beleza, do perfume...

Resta ainda a delicadeza.Ponto.




Bjs doces.

Cristiane disse...

Passei apenas para deixar um abraço e desejar-lhe uma ótima semana.Te sigo no Skoob! Adorei saber que fazes parte de lá! Bjs de luz.

Pérola Anjos disse...

Podar roseiras, é assim.

Lindíssimo!

Beijos, Leo querido!

Lu disse...

Podar como quem acarinha,
como quem ampara
- mais que apara -,
incentiva brotos,
aviva sementes,
espalha mudas,
povoa jardins...

...feito passarinho!

Beijos!!!

Menino Dieke disse...

Nossa!! Fui ao meu jardim agora
E sabe o que percebi?
minhas flores estão morrendo,
secas, precisando de águas pra que meu jardim possa voltar a ser lindo na simplicidade das suas flores...
Gostei daqui vou voltar sempre

Denise Portes disse...

Leo,
Quantas vezes deixamos de olhar para o nosso jardim.
Beijos
Denise

Lu disse...

Oieeeee leoo passando pra deixar meu desejos de otima semana! fica com Deus! bjos luh

Fernanda Baima disse...

O Antonie é sempre incrível. ;)
Adorei o blog, cheio de pensamentos valiosos. Já estou seguindo!
Vou add no last.fm também, ok?

Beijos.

Maíra Souza disse...

Eu só me encanto quando vejo/leio algo de Saint Exupéry. Bonito demais! *__*

BjO querido.
E obrigada pelos coment nas Coisas...

=)