Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Fica sabendo que não é em vão que eu amo o que se acha ameaçado.
Não é de deplorar que as coisas preciosas o estejam. Eu encontro
precisamente nisso uma condição da sua qualidade. Eu amo o amigo
fiel nas tentações. Se não houvesse tentação, não haveria fidelidade,
não teria eu amigos. E eu aceito que alguns caiam, para das valor aos outros.

Saint Exupéry

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sábado, 29 de maio de 2010

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Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas



E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.

Poema: Carlos Pena Filho
Ilustração: Marc Chagall

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Quem não sonha o azul do voô
perde seu poder de pássaro.



É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

Poema: Thiago de Mello
Ilustração René Magritte

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terça-feira, 25 de maio de 2010




Há tanta dor nesse jogo de procurar um parceiro, de testar,
tentar. E a gente se dá conta subitamente de ter esquecido
que era só um jogo, e vai embora chorando. -

Texto: Sylvia Plath
Ilustração por: Adelle Maedchen

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domingo, 23 de maio de 2010

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Ligados aos nossos irmãos por um bem comum que se situa fora de nós, só então respiramos. A experiência mostra que amar não é olhar um para o outro, mas olhar
juntos na mesma direção. Só há companheiros quando homens se unem na mesma escalada
para o mesmo pico, onde se encontram.

Saint Exupéry

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança,
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.



Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança,
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

Camões
Imagem: Dalí

quarta-feira, 19 de maio de 2010




- Sim, fiquei enlevada com você, ainda estou. Ninguém jamais despertou tamanha intensidade de sensação física em mim. Afastei-o, pois não suportaria ser um capricho passageiro. Antes de entregar meu corpo, preciso entregar meus pensamentos, minha mente, meus sonhos. E você não queria saber de nada disso. -

Foto e texto: Sylvia plath
Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que te desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como um apaziguamento de litígios e uma cura de ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.

Saint Exupéry

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sábado, 15 de maio de 2010

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Só há um templo no mundo e é o corpo humano.
Nada é mais sagrado que esta forma sublime.



Inclinar-se diante de um homem é fazer homenagem
a esta revelação na carne. Toca-se o céu quando
se toca um corpo humano.

Friedrich Novalis
Arte: Michelangelo

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quarta-feira, 12 de maio de 2010



Ainda que os amantes se percam, o amor persistirá;
E a morte não terá nenhum domínio.

Poema: Dylan Thomas
Imagem: Paul Klee

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terça-feira, 11 de maio de 2010

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Seu coração disse pra sua cabeça, vá,
e sua cabeça disse pra sua coragem, vou,
e sua coragem respondeu, vou nada,
mas sua boca não ouviu e beijou.

Adriana Falcão
Obra: Gustav Klimt

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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Quando eu estou no chão
e me sinto triste.
Eu fecho os meus olhos,
e assim, posso estar com você.

Ah meu bem,
seja forte por mim.
Pertença a mim!

(Nikka Costa)



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domingo, 9 de maio de 2010






Tornar-me-ei cada vez mais tão pequeno,
Até ser o menor sobre a terra.
Num amanhecer de primavera, no jardim.
Estenderei a mão para uma florzinha,
Contra ela esconderei meu rosto.
E murmurarei: Tu, minha criancinha,
Tu que não tens vestido nem sapato,
é sobre ti Que o céu apóia sua mão,
sobre tua gota De orvalho irradiante,
e és tu que preservas
Do desmoronamento
Seu edifício gigantesco.

Jirf Wolker

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sábado, 8 de maio de 2010

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Aqueles dizem-te: " Eu sou este. Aquele ou aquele outro. Possuo
isto ou aquilo." Fariam melhor se te dissessem: "Sou serrador de
tábuas, sou passagem de árvore em vias de se casar com o mar.
Estou a caminho de uma festa para outra. Pai realizado e a realizar,
porque minha esposa é fecunda. Sou jardineiro pela primavera,
porque ela me utiliza e se serve da minha pá e do meu rastelo. Sou
aquele que vai para." Ao passo que eles não vão para parte alguma.
E a morte não será para eles o que o porto é para o navio.

Saint Exupéry

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sexta-feira, 7 de maio de 2010




Em cada pessoa há milhões de galáxias,
Um infinito particular, um mundo de descobertas.
Milhares de sentimentos e emoções
Despertados através de fortes impactos.

Diversos rostos, formas e cores, procurando:
Descobrir na escuridão o brilho estelar,
Encontrar abrigo em um olhar, em uma palavra
E sair valsando pelo universo, guiando cometas...

Juliana Lira & Leo

terça-feira, 4 de maio de 2010

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Cada beijo chama outro beijo. Ah, naqueles primeiros tempos em
que a gente ama, os beijos nascem tão naturalmente! Chegam tão
apertados uns contra os outros; e a gente teria tanta dificuldade em
contar os beijos trocados numa hora quanto as flores de um campo
no mês de maio.

Marcel Proust

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

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Preciso aprender a fazer macarrão.

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sexta-feira, 30 de abril de 2010

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Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo pra mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

Saint Exupéry

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.



Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Poema: Adélia Prado

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Diálogo IV

Ele: Eu sou um abismo.

Ela: Te olho.

Ele: O que vês?

Ela: Só ouço.

Ele: O meu chamar?

Ela: Sim!

Ele: Vem habitar em mim.

Ela: Morrer em ti, cair em suas profundezas.

Ele: Verás a minha beleza.

Ela: Assim é o meu desejo, voar para enfim cair em seus braços que me abraçarão num amor mortal.

Ele: Esse amor mortal, em nossos braços e abraços, um laço imortal é.

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Leo&Marie

NASCENTE

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córrego
cachoeira
ribeirão



eu choro
pra pertencer à paisagem

Poema: Mariana Botelho
Imagem: Rio Vizela

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sábado, 24 de abril de 2010

Nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido.
Ninguém pode criar velhos companheiros. Nada vale o tesouro
de tantas recordações comuns, de tantas horas más vividas
juntos, de tantas desavenças, de tantas reconciliações, de
tantos impulsos afetivos.
Não se reconstroem essas amizades. Seria inútil plantar um
carvalho na esperança de ter, em breve, o abrigo em suas folhas.
Assim vai a vida. A principio, enriquecemos; plantamos durante
anos, mas os anos chegam em que o tempo destrói esse trabalho,
arranca essas arvores. Um a um, os companheiros nos retiram sua
sombra. E aos nossos lutos mistura-se então a magoa secreta de
envelhecer.

Saint Exupéry

sexta-feira, 23 de abril de 2010




- Cativa-me, disse a raposa.
- Que quer dizer cativar? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

Saint Exupéry

quinta-feira, 22 de abril de 2010

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Ouse, ouse... ouse tudo!!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.

Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!

Lou Andreas Salomé

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

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Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!



Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!

Fernanda de Castro

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segunda-feira, 19 de abril de 2010



Algo naqueles olhos azuis sinceros, inocentes,
nos corpos jovens formosos, na fragrância fugaz
das flores moribundas, golpeou-me como um talho
súbito de faca afiada. E o sangue do amor, com
seu longo penar, alagou meu coração.

Sylvia Plath

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domingo, 18 de abril de 2010

Argumentum Ornithologicum

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Eu fecho os olhos e vejo um bando de pássaros.
A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei
quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o
seu número? O problema envolve o da existência de
Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque
Deus sabe quantos pássaros eu vi. Se Deus não existe,
o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a
conta. Eu tenho certeza de que vi menos de dez
pássaros e mais de um, mas não vi nove, oito, sete,
seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Eu vi um
número entre dez e um, que não é nove, oito, sete,
seis, etc. Esse número é inconcebível, mas é inteiro;
Minha opinião ornitológica, Deus existe.



Jorge Luís Borges

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sexta-feira, 16 de abril de 2010

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Que época horrível!
Quando será possível
dizer a todos que amamos
o quanto gostamos.

Saint Exupéry

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Brilha, brilha estrelinha
Quero ver você brilhar.

Faz de conta que é só minha
Só pra ti irei cantar.



Brilha, brilha estrelinha
Brilha, brilha lá no céu.

Vou ficar aqui dormindo
Pra esperar Papai Noel.

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Cantiga

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quarta-feira, 14 de abril de 2010

O alimento essencial não lhe vem das coisas,

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mas sim do laço que liga as coisas.

Saint Exupéry

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terça-feira, 13 de abril de 2010



Engana-te o que é difícil de enunciar.
Ora, nada do que verdadeiramente importa se enuncia.
Ainda não encontrei um professor que me conseguisse
explicar por que é que eu gosto do vento no deserto,
à luz das estrelas.

Saint Exúpery

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domingo, 11 de abril de 2010

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."

Lou Andreas Salomé

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sábado, 10 de abril de 2010



(...) dizer às nuvens intemporais
Que o tempo é tudo.

Dylan Thomas

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sexta-feira, 9 de abril de 2010




A bola que lancei quando brincava no parque
ainda não tocou o chão.

Dylan Thomas

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terça-feira, 6 de abril de 2010

Essência

E para calar essa melancolia...



Penduro estrelas
No varal do dia.

Bia Clark

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Não fale, amor.



Cada palavra, um beijo a menos.

Dalton Trevisan

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Guarde um sonho bom,

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Pra mim.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobrevivente

Esse texto, anônimo, foi encontrado ao fim da segunda Guerra Mundial num campo de concentração nazista:

"Sou sobrevivente de um campo de concentração.

Meus olhos viram o que ninguém deveria ter visto.

Câmaras de gás construídas por engenheiros formados.

Crianças envenenadas por médicos diplomados.

Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas.

Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades.

Assim... são muitas as minhas suspeitas sobre a educação.

(Anônimo)

A Outros Que Não A Ti

Amigo ou inimigo, te desafio.

Tu com tua falsa moeda,
Tu meu amigo, acolá, com ar de vencedor
Que me escondias a mentira quando atrevido devassavas
O meu segredo mais recôndito,
Atraído por faiscantes piscadelas de olho
Até que o doce dente de meu amor mordesse em seco,
Desgastando-se afinal, e eu, já trôpego, sugasse,
Tu, a quem agora imploro que te assumas como ladrão
Na memória esculpida por espelhos,
Com gesto sorridente que jamais se esquece,
Rapidez da mão na luva de veludo
E todo o meu coração sob o teu martelo,
Foste outrora aquela criatura tão franca, tão alegre
Um familiar que nada exigia
Que nunca imaginei fosses fraldar ou crer
Enquanto deslocavas uma verdade no ar,

Pois ainda quando os amei por seus defeitos
Tanto quanto por suas qualidades,
Meus amigos eram inimigos sobre pernas de pau
Com as cabeças ocultas numa nuvem astuciosa.

Dylan Thomas

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segunda-feira, 29 de março de 2010




Dança sobre restos de cristais
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás


Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás


Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?


Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás


Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás


Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa


não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá


Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...


Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar


Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar


Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar


Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...


Dança...
Dança...
Dança...

(Marilina Ross)

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domingo, 28 de março de 2010

Conheci um velho jardineiro que a toda hora me falava num amigo dele. Os dois tinham vivido durante muito tempo como irmãos, antes que a vida os separasse. Tinham bebido juntos o chá da tarde, tinham celebrado as mesmas festas, tinham-se procurado um ao outro para pedirem alguns conselhos ou fazerem confidências. Que, bem vistas as coisas, um pouco tinham a dizer. Até os viam passear, depois de acabado o trabalho, sem pronunciarem uma só palavra. Limitava-se a olhar as flores, os jardins, o céu e as árvores. Mas, se um deles meneava a cabeça e apalpava entre os dedos alguma planta, o outro debruçava-se por sua vez e meneava também a sua. Acabavam de reconhecer o rasto da lagarta. E as flores abertas proporcionavam a qualquer deles o mesmo prazer.
Ora, aconteceu que um mercador contratou um dos dois e o associou por algumas semanas à sua caravana. Mas os ladrões de caravanas e depois as voltas que a vida dá e as guerras entre os impérios e as tempestades e os naufrágios e os lutos e as ruínas como uma pipa levada e trazida pelo mar, empurrando-o de jardim para jardim até aos confins do mundo.
Ora, o meu jardineiro, depois de uma velhice em silêncio , recebeu um dia uma carta do amigo. Sabe Deus quantos anos ela tinha navegado. Sabe Deus que diligências, que cavaleiros, que navios, que caravanas, a tinham pouco a pouco encaminhado, com essa mesma obstinação das milhares de ondas do mar, até ao seu jardim. E, nessa manhã, como ele resplandecia de felicidade e a queria partilhar, pediu-me para ler, como se pede pra ler um poema, a carta que tinha recebido. Ficou-se a ler no meu rosto a emoção da leitura. A verdade é que eram só algumas palavras, porque os jardineiros sempre tinham tido mais habilidade ára cavar do que para escrever. Só consegui ler: "Hoje de manhã, podei as minhas roseiras...". Aquilo me fez meditar sobre o essencial, que sempre me pareceu informulável. E meneei também a cabeça, como eles teriam feito.
Daí em diante, nunca mais o meu jardineiro havia de saber o que é o repouso. Poderias tê-lo ouvido informar-se da geografia, dos correios, das caravanas e das guerras entre os impérios. Três anos mais tarde, chegou por acaso o dia de eu mandar qualquer embaixada ao outro lado da terra. Mandei chamar o meu jardineiro: "se quiseres, podes escrever ao teu amigo." As minhas árvores sofreram um pouco com isso e também os legumes da horta e houve festa entre as lagartas, porque ele passava o dia em casa gatafunhando, rasurando, recomeçando a tarefa, tirando a língua de fora como uma criança debruçada sobre o trabalho. Mas descobria qualquer coisa de urgente a dizer, como que sentia a necessidade de se transportar todo ele, na sua verdade, para a casa do amigo. Precisava construir a sua própria ponte sobre o abismo, alcançar a outra parte de si próprio através do espaço e do tempo. Precisava dizer o seu amor. Por fim, todo corado, veio-me submeter à apreciação a sua resposta e perscrutar outra vez ainda no meu rosto um reflexo da alegriaque havia de iluminar o destinatário. O que ele queria era experimentar em mimo poder das suas confidências. Afinal, apenas confiava ao amigo, na sua escrita aplicada e desajeitada, como que uma oração muito convicta, mas de palavras humildes: "Hoje de manhã, também podei as minhas roseiras...". Na verdade, era o mais importante que ele podia dar a conhecer:(...)
Após a leitura, permaneci calado, meditando sobre o essencial, que eu ia compreendendo cada vez melhor. É que eles, sem o saber, estavam afinal a homenagear-te: era em ti, Senhor, que eles vinham a encontrar, para além das roseiras.

Saint Exupéry

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Diálogo III

Ela: Vou abrir o portão.

Ele: Abra sim, eu entro.

Ela: Se vc tivesse aqui, eu nem precisaria ir lá abrir o portão.

Ele: Por que?

Ela: Porque já estaria aberto, pra não perdermos um segundo sequer.

Ele: Talvez a gente se encontre, ainda lá fora, você vindo me abraçar.

Ela: E você vindo me encontrar.

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sexta-feira, 26 de março de 2010




Li Tai Pô

Na vida,
é preciso tanto seriedade
quanto delírio.
Se tiveres mais de um pão,
vende um
e compra um lírio.

(Canções de Camponeses do Japão)

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quinta-feira, 25 de março de 2010

Esta a moral que Mermoz* e tantos outros me ensinaram. A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo unir os homens; só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas.
Trabalhando só pelos bens matérias construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinza que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver.
Se procuro entre minhas lembranças as que me deixaram um gosto durável, se faço o balanço das horas que valeram a pena, certamente só encontro aquelas que nenhuma fortuna do mundo teria me presenteado. Não se compra a amizade de um Mermoz, de um companheiro a quem estamos ligados para sempre pelas provas sofridas juntos.
Esta noite de vôo e suas cem mil estrelas, esta serenidade, esta soberania de algumas horas, o dinheiro não compra.
Esta face nova do mundo depois de uma etapa difícil, estas arvores, estas flores, estas mulheres, estes sorrisos docemente coloridos pela vida a que regressamos de madrugada, este mundo de pequenas coisas que nos recompensam, o dinheiro não compra.

(Saint Exupéry)

* Jean Mermoz: Companheiro de Exupéry, foi o criador da aviação postal transoceânica na França, realizou a primeira viagem, levando os primeiros volumes de correspondência - 130 quilos - para a América do Sul. Partiu de Saint-Louis no dia 12 de Maio de 1930 num monomotor Laté 28 com flutuadores e pousou em Natal 21 horas depois. Quando terminou seus estudos, ingressou na aviação como piloto de linha. Foi o primeiro a cruzar nos dois sentidos o Atlântico Sul em 1933, utilizando-se do trimotor "Arc-en-Ciel". Enfim, depois de doze anos de trabalho, sobrevoando mais uma vez o atlântico sul, disse, numa rápida mensagem, que o motor da direita estava falhando. Depois, silêncio.

terça-feira, 23 de março de 2010

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Amor de Tarde

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso 10 minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

(Mário Benedetti 27-09-1920 - 17-05-2009)

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segunda-feira, 22 de março de 2010

AMOR MUDO

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Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!

(Canções de Camponeses do Japão)

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domingo, 21 de março de 2010

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Hoje de manhã, podei as minhas roseiras...
Saint Exupéry
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sábado, 20 de março de 2010

Tomara eu que fosses permanente e bem fundado, que fosses fiel.
Fiel é uma pessoa, em primeiro lugar, para consigo própria.
Que podes esperar da traição? Os laços que te hão de reger, que
te hão de animar, que te darão sentido e luz levam longo
tempo a atar. Repara nas pedras do templo. Deus me livre de voltar
a espalhá-las todos os dias, na pretensão de obter templos
melhores. Se trocares a propriedade por outra talvez melhor na
aparência, perdeste qualquer coisa tua que nunca mais voltarás
a encontrar. Por que será que te aborreces na casa nova? Se ela é
mais cômoda e corresponde melhor aos teus desejos do que
a outra, tão desprezível!... O poço deixava-te os braços doridos.
Sonhavas com uma fonte. Aí tens a tua fonte. Mas falta-te, daqui
para o futuro, o cântico da roldana e a água tirada do ventre da terra,
que cintilava ao sol.
Saint-Exupéry
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quinta-feira, 18 de março de 2010

Se todos os rios são doces, de onde o mar tira o sal?
Como sabem as estações do ano que devem trocar de camisa?
Por que são tão lentas no inverno e tão agitadas depois?
E como as raízes sabem que devem alçar-se até a luz e saudar o ar com tantas flores e cores?
É sempre a mesma primavera que repete seu papel?
E o outono?... ele chega legalmente ou é uma estação clandestina?

Pablo Neruda

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terça-feira, 16 de março de 2010

Tática e Estratégia

Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és


minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível


minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti


minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois


não haja cortinas
nem abismos


minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

(Mario Benedetti)

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