Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


sábado, 28 de maio de 2011

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Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins...

Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim

E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim...




Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim

Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos Bandolins...

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Letra: Oswaldo Montenegro, Bandolins.
Arte: Pablo Picasso, Three Dancers, 1925.

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sábado, 21 de maio de 2011

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Entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta.

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Poema: Alice Ruiz
Arte: Henri Matisse, Woman Beside Water, 1905.

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domingo, 15 de maio de 2011

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O Amor toma banho de sol nos olhos dela,
O Amor percorre as meadas de suas madeixas,
O Amor se perde em cada um dos lábios dela
E mil beijos ali colhe e a li deixa;
Em cada parte dela, visível o Amor;
Mas, ah! não penetra o seu interior.

Lá dentro habitam os inimigos do Amor,
A malícia, a inconstância, a altiveza.
Assim a face da terra se enfeita em flor,
Em verdes vários e em tanta beleza,
Mas lá dentro estão o inferno e a escuridão,
Lá vivem os espíritos maus em danação.





Pois comigo, ai de mim, acontece o contrário:
A morte e a treva jazem em meus olhos em pranto,
Meu rosto pálido, em desespero, solitário,
É justamente o oposto do Amor, no entanto,
Ele, dentro de mim, como o tirano persa,
Mantém alta corte invisível, pois imersa.

Oh! toma meu coração, e então ficará
Teu íntimo com bom suprimento de amor,
E dá-me o teu, que está alegria tornará
Todo amorável meu eu exterior.
Mas que troca! Eu, revestido de feminina
Graça, e tu, interiormente, masculina.

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Poema: Abraham Cowley, A Troca.
Arte: Lasar Segall, Encontro, 1924.

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domingo, 8 de maio de 2011

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Sem fazer barulho abri a janela e sentei-me na cama, não ousava me mexer com medo que me ouvissem lá embaixo, lá fora às coisas também pareciam congeladas, paralisadas num propósito mútuo.



Nunca mais esses momentos serão possíveis para mim, mas ultimamente tenho sido muito hábil para captar, se ouvir com atenção, o som dos soluços que romperam quando me encontrei sozinho com mamãe, na realidade seu eco nunca cessou.

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Texto: Marcel Proust, Em busca do tempo perdido.
Arte: Edvard Munch, A mãe morta e a criança, 1900.

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

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Embora eu tenha de partir, eu te asseguro
Que em nossas almas não haverá separação.
Elas são uma, e, assim como bloco de ouro
Que é distendido em folha, juntas ficarão.

Ou se elas são duas, serão duas apenas
Como duas, as hastes gêmeas de um compasso:
Tu és a haste fixa, mas moves-te em verdade
Todas as vezes que a outra alma avança um passo.



E, enquanto a outra lá bem longe circunvaga,
Essa em seu centro, p'ra ela inclina-se depressa,
Solícita; e só se ergue de novo ereta
Quando a outra haste de sua viagem regressa.

Assim és tu p'ra mim, que, como haste oblíqua,
Obliquamente vago distante de ti;
Tua permanência faz perfeitos meus circuitos
E ajuda-me a voltar ao ponto de que parti.

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Poema: John Donne, A valediction: forbidding mourning.
Arte: Marc Chagall, Le Coq sur Paris.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

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De mel é o sabor das lembranças
trazidas de minhas andanças
pra enfeitar sua saudade
Eu trouxe canções e flores
e um paraíso de cores
pra pintar sua cidade.



O que me prendeu por aqui
foi seu sorriso franco
e esse doce no olhar
Eu vim pra demorar bem pouco menina
agora eu quero ficar.

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Poema: Zé Geraldo.
Arte: Antônio Mancini, young girl laughing.

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

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À esperança o meu relógio ofereci:
Dela uma âncora recebi.

Velho livro de orações dei-lhe de presente:
Retribuiu-me com uma lente.

Dei-lhe então um frasco de lágrimas antigas:
E ela, algumas verdes espigas.



Nada mais te trago, não aguento tua tardança -
O que eu queria era uma aliança.

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Arte: George Watts, Hope.
Poesia: George Herbert, Hope.

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terça-feira, 12 de abril de 2011

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Tudo mudou tão depressa em volta de nós: relações humanas, condições de trabalho, costumes...Até mesmo a nossa psicologia foi subvertida em suas bases mais íntimas. As noções de separação, ausência, distância, regresso, são realidades diferentes no seio de palavras que permaneceram as mesmas. Para apreender o mundo de hoje usamos uma linguagem que foi feita para o mundo de ontem, E a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza apenas porque corresponde melhor à nossa linguagem.

Cada progresso nos expulsou para um pouco mais longe ainda de hábitos que mal havíamos adquirido; na verdade somos emigrantes que ainda não fundaram a sua pátria.

Somos todos bárbaros novos que ainda se maravilham com seus novos brinquedos. Não tem outro sentido nossas corridas de avião. Este sobe mais alto, aquele corre mais depressa. Esquecemos por que o fazemos correr. A corrida, provisoriamente, fica mais importante que o seu próprio objetivo. E sempre é assim mesmo.

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Texto: Saint Exupéry, Terra dos homens.

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

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Quando acordei, a cidade falou.
Pássaros e relógios e campanários
Se alvoroçaram junto à multidão coleante,
O réptil corrompe numa chama
Os saqueadores e os ladrões do sono,
O mar da casa ao lado dispersou
As rãs e os demônios e a cigana,



Enquanto lá fora um homem, mergulhado
Até a cabeça em seu próprio sangue,
Degolava a manhã a navalhadas.

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Poema: Dylan Thomas, Quando acordei.
Arte: Candido Portinari, Painel Guerra.

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sábado, 2 de abril de 2011

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Nenhum amor atinge o seu mais alto grau
Enquanto a vista alheia teme, como um mal.



O amor é uma luz sempre crescente e constante;
Seu primeiro minuto após meio-dia é noite.

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Trecho: John Donne, preleção sobre a sombra.
Arte: Advard Munch, olhos nos olhos.

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segunda-feira, 28 de março de 2011

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Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.



Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

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Poema: Nelson Ascher
Arte: Govinder Nazran

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sexta-feira, 25 de março de 2011

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Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.



Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.


Poema: Oscar Wilde

Dedico à querida amiga Loli em seu aniversário.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

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Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.



Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

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Poema: Drummond de Andrade. Balada do amor.
Fotografia: Robert Doisneau, Hôtel de Ville.

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quinta-feira, 17 de março de 2011

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Lua
morta


Rua
torta

Tua
porta

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Poema: Cassiano Ricardo, Serenata Sintética.
Arte: Tarsila do Amaral, Lua.

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sábado, 12 de março de 2011

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Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como um beijo de um devasso.



Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa a Deus.
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Poema: Sylvia Plath, 40 Graus de Febre.
Arte: Tamara de Lempicka, Dormeuse.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

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Como um dia numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar.


Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar
Eu não estou indo embora
Tou só preparando a hora
De voltar.
De voltar.

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Letra: Caetano Veloso, Um Dia.
Arte: René Magritte, The Son of Man.

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terça-feira, 8 de março de 2011

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Sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional – um conjunto de valores.

Meus Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das “festas” alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, para chocada com as palavras pronunciadas – são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo – mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante.

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Texto e retrato de Sylvia Plath.

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quinta-feira, 3 de março de 2011

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Você compreende, sem alimento, depois de três dias de marcha, meu coração não devia estar batendo com muita força...

Pois em certo momento, quando eu progredia ao longo de uma encosta vertical, cavando buracos para enfiar as mãos, o coração me caiu em pane...

Hesitou, deu mais uma batida...Uma batida estranha...Senti que se ele hesitasse um segundo mais seria o fim.

Fiquei imóvel, escutando...nunca - está ouvindo? - nunca, num avião, me senti tão preso ao ruído do motor como, naquele momento, às batidas do meu próprio coração.

E eu lhe dizia: Vamos, força! Veja se bate mais...Hesitava mas depois recomeçava, sempre...
Se você soubesse como tive orgulho do meu coração!

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Texto: Saint Exupéry, Terra dos homens.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

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Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.



Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.

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Poema: Thiago de Mello, Sugestão.
Arte: Duy Huynh, A song after the rain has gone.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

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Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.



Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.

Depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

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Poema: Charles Bukowski
Arte: Edward Hopper. Automat, 1927.

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

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Sonhamos juntos
juntos despertamos
o tempo faz e desfaz
enquanto isso

não lhe importam teus sonhos
nem meus sonhos
somos rudes
ou demasiado cuidadosos

pensamos que não cai
essa gaivota
cremos que é eterno
este exorcismo
que a batalha é nossa
ou de ninguém

juntos vivemos
sucumbimos juntos
mas essa destruição
é uma piada
um detalhe uma brisa
um vestígio
um abrir-se e fechar-se
o paraíso

já nossa intimidade
é tão grande
que a morte a esconde
em seu vazio
quero que me conte
o luto que te calas
de minha parte te ofereço
minha última confiança

estas só
estou só
mas às vezes
pode a solidão
ser
uma chama.

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Poema: Mário Benedetti

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

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Entre as coisas que voam
e as coisas que ficam



vôo e fico.

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Poema: Maria Esther Maciel.
Arte: René Magritte, vitória.

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

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...Três dimensões, que nada,
Tudo é chato, e você não está aqui.
Cartas, papéis, selos
E branco. E preto.
Datilografá-lo, e
Pronto.
O gotejar, o líquido gotejar
Da chuva na calha
É a voz que me resta
Nesta noite.
E o Clic-clic
Duro e rápido Clic-clic
Do relógio
Dói bastante,
É o coração que resta a bater
Para mim esta noite.


O leito estreito,
A cama de ferro
É o vão que resta
E o calor que resta...
Resta, resta.
Para a cama e dormir
E sem lágrimas escorrem
Os segundos informes
Minutos, horas
E você nunca
Os pingos da chuva choram
E você nunca
E Tic-tic
Tic- tic
Passam as horas.

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Poema: Sylvia Plath, Os Diários de...
Arte: Toul'se Lautrec, Rosa La Rouge

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

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Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um voo.



"Sou céu!" disse o chão.

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Poema: Guilherme de Almeida
Fotografia retirada do google

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sábado, 5 de fevereiro de 2011

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Talvez na destruição do mundo fosse finalmente possível ver como ele foi feito. Oceanos, montanhas. O grave anti-espetáculo das coisas deixando de existir. A desolação extensa, hidrópica e secularmente fria. O silêncio.

Texto: Cormac McCarthy, A estrada.
Arte: Candido Portinari, Guerra e Paz.

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

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Fui visitar o único geômetra verdadeiro, meu amigo.

Comoveu-me vê-lo tão atento ao chá e as brasas e à cafeteira e ao cântico da água. Provou o líquido e depois ficou à espera, porque o chá expele lentamente o aroma. Impressionou-me agradavelmente que, durante esta curta meditação, ele permanecesse mais distraído pelo chá do que por um problema de geometria:

- Tu, que és um sábio, não desprezas os trabalhos humildes...

Mas ele não me respondia. Depois de ter enchido, todo satisfeito, as nossas xícaras:

- Eu, que sou um sábio...que entendes tu por isso? havia o tocador de guitarra de desprezar o cerimonial do chá pela simples razão de saber qualquer coisa acerca das relações entre as notas? Eu sei qualquer coisa acerca das relações entre as linhas de um triângulo. No entanto, agradam-me o canto da água e o cerimonial que há de honrar o rei, meu amigo...

Ficou uns instantes pensativo e acrescentou:

- Que sei eu... eu não acredito que os meus triângulos me esclareçam quanto o prazer que o chá nos dá. Mas pode acontecer que o prazer do chá me esclareça um pouco acerca dos triângulos...

Texto: Saint Exupéry, Cidadela.
Arte: Jean Hans Arp, Formas Geométricas.

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domingo, 30 de janeiro de 2011

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Quando acordei esta manhã no quarto úmido e escuro, ouvindo o tamborilar da chuva por todos os lados, tive a impressão de que havia sarado. Estava curada das palpitações no coração que me atormentaram nos últimos dois dias, praticamente impedindo que eu lesse, pensasse ou mesmo levasse a mão ao peito. Um pássaro alucinado se debatia lá dentro, preso na gaiola de osso, disposto a rompê-lo e sair, sacudindo meu corpo inteiro a cada tentativa. Senti vontade de golpear meu coração, arrancá-lo para deter aquela pulsação ridícula que parecia querer saltar do meu coração e sair pelo mundo, seguindo seu próprio rumo. Deitada, com a mão entre os seios, alegrei-me por acordar e sentir a batida tranquila, ritmada e quase imperceptível de meu coração em repouso. Levantei-me, esperando a cada momento ser novamente atormentada, mas isso não ocorreu. Desde que acordei estou em paz.

Texto: Sylvia Plath
Arte: Egon Schiele

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

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Se tu queres amar,
procura logo o mar.
Ali enlaça o corpo
salgado noutro corpo.


Tenta imitar a teia
das ondas e marés.
Dança na branca areia
Outro serás quem és."

Poema: Adriano Espinola
Arte: Merritt Chase

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

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A terra gira para que todas as pessoas do mundo possam olhar
para o espaço em todas as direções. Assim cada um pode ver as
estrelas e tudo o que existe de qualquer lugar onde esteja...
não importa onde você mora, não há nenhum único pedacinho da
gloria do céu que ficará escondido de você.


É só que eu nunca tinha pensado que o sol reflete uma
luz emprestada de Deus, do mesmo modo que a lua
reflete uma luz emprestada do sol.

Texto: Jostein Gaarder
Arte: Maxfield Parrish

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sábado, 15 de janeiro de 2011

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Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas doces de um beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Poema: Florbela Espanca
Arte: Marc Chagall

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

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Carne e osso não passam de terra e água, mas Deus
soprou um pouco do seu espírito dentro de vocês.

E por isso que há uma parte de você que é Deus.

Texto: Jostein Gaarder
Arte: Auguste Rodin

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

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Indubitavelmente, raríssimas pessoas compreendem o caráter puramente subjetivo desse fenômeno em que consiste o amor e como é o amor uma espécie de criação de um indivíduo suplementar, distinto daquele que usa no mundo o mesmo nome, e que formamos com elementos tirados na maioria de nós mesmos.

Texto: Marcel Proust
Arte: Frank Dicksee

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domingo, 9 de janeiro de 2011

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Como a vida é um movimento rápido, um fluir continuo, mutante, como estamos sempre a nos despedir, indo a lugares, vendo pessoas, fazendo coisas. Só na chuva, às vezes, só quando a chuva cai, limitando seu raio de atuação que já é desgracadamente reduzido, só quando você senta e fica escutando ao lado da janela, enquanto o ar frio e úmido sopra suave na sua nuca – só aí você pensa e sente aflição. Sente o dia escorrer, esquivo como lisas minhocas rosadas, por entre os dedos, e você analisa o que tem aos dezoito anos, pensa no modo como consegue, com dificuldade e concentração, trazer de volta um dia, um dia de sol, céu azul e aquarelas á beira-mar. consegue se recordar das observações sensuais que tornam aquele dia real, e pode se iludir – quase – pensando que seria capaz de retornar ao passado e reviver os dias e horas num curto período. Que nada, a busca do tempo passado é mais difícil do que você pensa, e o tempo presente acaba devorado por essas buscas melancólicas. O filme de seus dias e noites está enrolado dentro de você, bem apertado, para nunca mais ser passado – e os flashbacks ocasionais são vagos, desfocados, irreais, como se os visse através da neve que cai. Agora você começa a ficar com medo. Não crê em Deus nem na vida após a morte, portanto não pode contar com o paraíso quando sua alma inexistente ascender. Você acredita que tudo precisa vir do homem, e o homem é bem criativo em seus bons momentos – muito maduro, muito perceptivo para a sua idade – quantos anos tem, agora? Quantos milhares de anos? Contudo, mesmo nesta era de especialização, de variedade e complexidade infinita e de uma miríade de escolhas, o que você pega para si no saco de surpresas? Gatos tem nove vidas, diz o ditado. Você tem uma; e nalgum ponto da fina linha tênue de sua existência há um nó cego, um coágulo, a batida suspensa que marca o final deste individuo em particular que se chama “Eu”, “Você” e “Sylvia”. Então você fica pensando em como agir, como ser – e você considera valores e atitudes. No meio do relativismo e do desespero, esperando que as bombas comecem a cair, que o sangue corra (como corre agora no Iraque, no Afeganistão, na Rússia) e escorra bem na frente dos seus olhos, você quer saber tomada por um enjoativo surto de pavor, como se agarrar à terra, às sementes da relva e da vida.


Sylvia Plath


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sábado, 8 de janeiro de 2011

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“Não dá para me enganar e escapar da constatação brutal de que não importa quanto você se mostre entusiasmada, não importa a certeza de que caráter é destino, nada é real, passado ou futuro, quando agente fica sozinha no quarto com o relógio tiquetaqueando alto no falso brilho ilusório da luz elétrica. E se você não tem passado ou futuro, que no final das contas são os elementos que formam o presente todo, então é bem capaz de descartar a casca vazia do presente e cometer suicídio. Mas a massa fria entranhada em meu crânio raciocina e papagaia, ‘penso, logo existo’ (...). Para que serve a boa aparência? Garantir segurança temporária? De que adianta o cérebro? Para dizer apenas ‘eu vivi e compreendi’?”.


Sylvia Plath


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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

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Eu, o vento

...Sou vendaval e brisa que a mercê da vida, às vezes sou conforto, às vezes incômodo. Às vezes paz, às vezes caos.

Eu, o vento, que sou incolor e frio, sou calor e sangue, que a mercê da vida, às vezes sou dor, às vezes rotina. as vezes sou morte, às vezes vida...


Eu, o vento, que sou órfão e só, sou carinho e carente, que a mercê da vida, às vezes sou colheita, às vezes plantio. Às vezes sou notado, às vezes esquecido.

Eu, o vento, que sou força e anemia, sou opressor e vítima, que a mercê da vida, às vezes sou vento, simplesmente.

Poema: Mário Nhardes
Arte: Andrew Wyeth

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

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Saudade é não saber.
Não saber o que fazer com os dias
que ficaram mais compridos,
não saber como encontrar tarefas
que lhe cessem o pensamento.



Não saber como frear as lágrimas
diante de uma música,
não saber como vencer a dor de um
silêncio que nada preenche.

Poema: Martha Medeiros
Arte: Gustav Klimt

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

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Persigo um pássaro
e alcanço, apenas,
no muro,
a sombra de um voo.

Poema: Helena Kolody
Arte: Georges Braque

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

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Posso escolher entre ser constantemente ativa e feliz ou
introspectivamente passiva e triste.

Ou posso ficar louca, ricocheteando no meio.

Texto: Sylvia Plath
Arte: Egon Schiele

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

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Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um pais

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

Poema: Mário Benedetti

Cruzemos as pontes em 2011!

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

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- Se ser neurótica é querer duas coisas ao mesmo tempo, então sou completamente neurótica.
Vou ficar voando de uma coisa para outra pelo resto da vida.

- Deixe que eu voe ao seu lado.

Texto: Sylvia Plath
Arte: Marc Chagall

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

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Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para meu sonho naufragar.



Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

Poema: Cecília Meireles
Arte: Jasper Johns

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Dedico esta postagem à todos os meus amigos e amigas
que por aqui passam, seguem, acompanham, comentam,
vocês são especiais e colorem minhas areias desertas.

Feliz Natal!

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

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Eu vou te dar alegria
eu vou parar de chorar
eu vou raiar um novo dia



Eu vou sair do fundo do mar
eu vou sair da beira do abismo
e dançar e dançar e dançar.

Poema: Arnaldo Antunes
Arte: Johanna Harmon

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

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Meu único e nobre coração tem testemunhas
Que despertarão tateantes em todos os países do amor;



E quando o sono cego gotejar sobre os sentidos em vigília,
O coração será sensual, ainda que cinco olhos se quebrem.

Poema: Dylan Thomas
Arte: Gustav Klimt

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

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Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão.



E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim.

Poema: Chico Buarque
Arte: Jorge Luis Alio

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

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Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.



Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

Poema: Ferreira Gullar
Arte: Aldemir Martins

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Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo

o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos

viver em paz e morrer em paz, pois o que da um sentido

à vida dá um sentido à morte.

(Saint Exupéry)

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

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Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;



Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.

Poema: Willian Butler Yeats
Arte: Auguste Pierre Cot

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

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Sente-se diante da vitrola
E esqueça-se das vicissitudes da vida.



Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma.

Poema: Oswald de Andrade
Arte: Auguste Renoir

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sábado, 27 de novembro de 2010

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A constância é contrária à natureza, contrária à vida.



As únicas pessoas completamente constantes são os mortos.

Texto: Aldous Huxley
Arte: Henri Matisse

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

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Se todos os rios são doces, de onde o mar tira o sal?
Como sabem as estações do ano que devem trocar de camisa?
Por que são tão lentas no inverno e tão agitadas depois?
E como as raízes sabem que devem alçar-se até a luz e saudar o ar com tantas flores e cores?
É sempre a mesma primavera que repete seu papel?
E o outono?... ele chega legalmente ou é uma estação clandestina?

Pablo Neruda

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