Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol...


segunda-feira, 28 de março de 2011

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Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.



Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

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Poema: Nelson Ascher
Arte: Govinder Nazran

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sexta-feira, 25 de março de 2011

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Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.



Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.


Poema: Oscar Wilde

Dedico à querida amiga Loli em seu aniversário.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

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Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.



Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

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Poema: Drummond de Andrade. Balada do amor.
Fotografia: Robert Doisneau, Hôtel de Ville.

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quinta-feira, 17 de março de 2011

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Lua
morta


Rua
torta

Tua
porta

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Poema: Cassiano Ricardo, Serenata Sintética.
Arte: Tarsila do Amaral, Lua.

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sábado, 12 de março de 2011

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Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como um beijo de um devasso.



Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa a Deus.
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Poema: Sylvia Plath, 40 Graus de Febre.
Arte: Tamara de Lempicka, Dormeuse.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

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Como um dia numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar.


Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar
Eu não estou indo embora
Tou só preparando a hora
De voltar.
De voltar.

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Letra: Caetano Veloso, Um Dia.
Arte: René Magritte, The Son of Man.

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terça-feira, 8 de março de 2011

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Sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional – um conjunto de valores.

Meus Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das “festas” alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, para chocada com as palavras pronunciadas – são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo – mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante.

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Texto e retrato de Sylvia Plath.

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quinta-feira, 3 de março de 2011

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Você compreende, sem alimento, depois de três dias de marcha, meu coração não devia estar batendo com muita força...

Pois em certo momento, quando eu progredia ao longo de uma encosta vertical, cavando buracos para enfiar as mãos, o coração me caiu em pane...

Hesitou, deu mais uma batida...Uma batida estranha...Senti que se ele hesitasse um segundo mais seria o fim.

Fiquei imóvel, escutando...nunca - está ouvindo? - nunca, num avião, me senti tão preso ao ruído do motor como, naquele momento, às batidas do meu próprio coração.

E eu lhe dizia: Vamos, força! Veja se bate mais...Hesitava mas depois recomeçava, sempre...
Se você soubesse como tive orgulho do meu coração!

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Texto: Saint Exupéry, Terra dos homens.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

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Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.



Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.

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Poema: Thiago de Mello, Sugestão.
Arte: Duy Huynh, A song after the rain has gone.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

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Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.



Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.

Depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

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Poema: Charles Bukowski
Arte: Edward Hopper. Automat, 1927.

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

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Sonhamos juntos
juntos despertamos
o tempo faz e desfaz
enquanto isso

não lhe importam teus sonhos
nem meus sonhos
somos rudes
ou demasiado cuidadosos

pensamos que não cai
essa gaivota
cremos que é eterno
este exorcismo
que a batalha é nossa
ou de ninguém

juntos vivemos
sucumbimos juntos
mas essa destruição
é uma piada
um detalhe uma brisa
um vestígio
um abrir-se e fechar-se
o paraíso

já nossa intimidade
é tão grande
que a morte a esconde
em seu vazio
quero que me conte
o luto que te calas
de minha parte te ofereço
minha última confiança

estas só
estou só
mas às vezes
pode a solidão
ser
uma chama.

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Poema: Mário Benedetti

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

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Entre as coisas que voam
e as coisas que ficam



vôo e fico.

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Poema: Maria Esther Maciel.
Arte: René Magritte, vitória.

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

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...Três dimensões, que nada,
Tudo é chato, e você não está aqui.
Cartas, papéis, selos
E branco. E preto.
Datilografá-lo, e
Pronto.
O gotejar, o líquido gotejar
Da chuva na calha
É a voz que me resta
Nesta noite.
E o Clic-clic
Duro e rápido Clic-clic
Do relógio
Dói bastante,
É o coração que resta a bater
Para mim esta noite.


O leito estreito,
A cama de ferro
É o vão que resta
E o calor que resta...
Resta, resta.
Para a cama e dormir
E sem lágrimas escorrem
Os segundos informes
Minutos, horas
E você nunca
Os pingos da chuva choram
E você nunca
E Tic-tic
Tic- tic
Passam as horas.

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Poema: Sylvia Plath, Os Diários de...
Arte: Toul'se Lautrec, Rosa La Rouge

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

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Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um voo.



"Sou céu!" disse o chão.

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Poema: Guilherme de Almeida
Fotografia retirada do google

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sábado, 5 de fevereiro de 2011

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Talvez na destruição do mundo fosse finalmente possível ver como ele foi feito. Oceanos, montanhas. O grave anti-espetáculo das coisas deixando de existir. A desolação extensa, hidrópica e secularmente fria. O silêncio.

Texto: Cormac McCarthy, A estrada.
Arte: Candido Portinari, Guerra e Paz.

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

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Fui visitar o único geômetra verdadeiro, meu amigo.

Comoveu-me vê-lo tão atento ao chá e as brasas e à cafeteira e ao cântico da água. Provou o líquido e depois ficou à espera, porque o chá expele lentamente o aroma. Impressionou-me agradavelmente que, durante esta curta meditação, ele permanecesse mais distraído pelo chá do que por um problema de geometria:

- Tu, que és um sábio, não desprezas os trabalhos humildes...

Mas ele não me respondia. Depois de ter enchido, todo satisfeito, as nossas xícaras:

- Eu, que sou um sábio...que entendes tu por isso? havia o tocador de guitarra de desprezar o cerimonial do chá pela simples razão de saber qualquer coisa acerca das relações entre as notas? Eu sei qualquer coisa acerca das relações entre as linhas de um triângulo. No entanto, agradam-me o canto da água e o cerimonial que há de honrar o rei, meu amigo...

Ficou uns instantes pensativo e acrescentou:

- Que sei eu... eu não acredito que os meus triângulos me esclareçam quanto o prazer que o chá nos dá. Mas pode acontecer que o prazer do chá me esclareça um pouco acerca dos triângulos...

Texto: Saint Exupéry, Cidadela.
Arte: Jean Hans Arp, Formas Geométricas.

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domingo, 30 de janeiro de 2011

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Quando acordei esta manhã no quarto úmido e escuro, ouvindo o tamborilar da chuva por todos os lados, tive a impressão de que havia sarado. Estava curada das palpitações no coração que me atormentaram nos últimos dois dias, praticamente impedindo que eu lesse, pensasse ou mesmo levasse a mão ao peito. Um pássaro alucinado se debatia lá dentro, preso na gaiola de osso, disposto a rompê-lo e sair, sacudindo meu corpo inteiro a cada tentativa. Senti vontade de golpear meu coração, arrancá-lo para deter aquela pulsação ridícula que parecia querer saltar do meu coração e sair pelo mundo, seguindo seu próprio rumo. Deitada, com a mão entre os seios, alegrei-me por acordar e sentir a batida tranquila, ritmada e quase imperceptível de meu coração em repouso. Levantei-me, esperando a cada momento ser novamente atormentada, mas isso não ocorreu. Desde que acordei estou em paz.

Texto: Sylvia Plath
Arte: Egon Schiele

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

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Se tu queres amar,
procura logo o mar.
Ali enlaça o corpo
salgado noutro corpo.


Tenta imitar a teia
das ondas e marés.
Dança na branca areia
Outro serás quem és."

Poema: Adriano Espinola
Arte: Merritt Chase

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

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A terra gira para que todas as pessoas do mundo possam olhar
para o espaço em todas as direções. Assim cada um pode ver as
estrelas e tudo o que existe de qualquer lugar onde esteja...
não importa onde você mora, não há nenhum único pedacinho da
gloria do céu que ficará escondido de você.


É só que eu nunca tinha pensado que o sol reflete uma
luz emprestada de Deus, do mesmo modo que a lua
reflete uma luz emprestada do sol.

Texto: Jostein Gaarder
Arte: Maxfield Parrish

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sábado, 15 de janeiro de 2011

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Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas doces de um beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Poema: Florbela Espanca
Arte: Marc Chagall

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

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Carne e osso não passam de terra e água, mas Deus
soprou um pouco do seu espírito dentro de vocês.

E por isso que há uma parte de você que é Deus.

Texto: Jostein Gaarder
Arte: Auguste Rodin

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

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Indubitavelmente, raríssimas pessoas compreendem o caráter puramente subjetivo desse fenômeno em que consiste o amor e como é o amor uma espécie de criação de um indivíduo suplementar, distinto daquele que usa no mundo o mesmo nome, e que formamos com elementos tirados na maioria de nós mesmos.

Texto: Marcel Proust
Arte: Frank Dicksee

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domingo, 9 de janeiro de 2011

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Como a vida é um movimento rápido, um fluir continuo, mutante, como estamos sempre a nos despedir, indo a lugares, vendo pessoas, fazendo coisas. Só na chuva, às vezes, só quando a chuva cai, limitando seu raio de atuação que já é desgracadamente reduzido, só quando você senta e fica escutando ao lado da janela, enquanto o ar frio e úmido sopra suave na sua nuca – só aí você pensa e sente aflição. Sente o dia escorrer, esquivo como lisas minhocas rosadas, por entre os dedos, e você analisa o que tem aos dezoito anos, pensa no modo como consegue, com dificuldade e concentração, trazer de volta um dia, um dia de sol, céu azul e aquarelas á beira-mar. consegue se recordar das observações sensuais que tornam aquele dia real, e pode se iludir – quase – pensando que seria capaz de retornar ao passado e reviver os dias e horas num curto período. Que nada, a busca do tempo passado é mais difícil do que você pensa, e o tempo presente acaba devorado por essas buscas melancólicas. O filme de seus dias e noites está enrolado dentro de você, bem apertado, para nunca mais ser passado – e os flashbacks ocasionais são vagos, desfocados, irreais, como se os visse através da neve que cai. Agora você começa a ficar com medo. Não crê em Deus nem na vida após a morte, portanto não pode contar com o paraíso quando sua alma inexistente ascender. Você acredita que tudo precisa vir do homem, e o homem é bem criativo em seus bons momentos – muito maduro, muito perceptivo para a sua idade – quantos anos tem, agora? Quantos milhares de anos? Contudo, mesmo nesta era de especialização, de variedade e complexidade infinita e de uma miríade de escolhas, o que você pega para si no saco de surpresas? Gatos tem nove vidas, diz o ditado. Você tem uma; e nalgum ponto da fina linha tênue de sua existência há um nó cego, um coágulo, a batida suspensa que marca o final deste individuo em particular que se chama “Eu”, “Você” e “Sylvia”. Então você fica pensando em como agir, como ser – e você considera valores e atitudes. No meio do relativismo e do desespero, esperando que as bombas comecem a cair, que o sangue corra (como corre agora no Iraque, no Afeganistão, na Rússia) e escorra bem na frente dos seus olhos, você quer saber tomada por um enjoativo surto de pavor, como se agarrar à terra, às sementes da relva e da vida.


Sylvia Plath


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sábado, 8 de janeiro de 2011

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“Não dá para me enganar e escapar da constatação brutal de que não importa quanto você se mostre entusiasmada, não importa a certeza de que caráter é destino, nada é real, passado ou futuro, quando agente fica sozinha no quarto com o relógio tiquetaqueando alto no falso brilho ilusório da luz elétrica. E se você não tem passado ou futuro, que no final das contas são os elementos que formam o presente todo, então é bem capaz de descartar a casca vazia do presente e cometer suicídio. Mas a massa fria entranhada em meu crânio raciocina e papagaia, ‘penso, logo existo’ (...). Para que serve a boa aparência? Garantir segurança temporária? De que adianta o cérebro? Para dizer apenas ‘eu vivi e compreendi’?”.


Sylvia Plath


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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

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Eu, o vento

...Sou vendaval e brisa que a mercê da vida, às vezes sou conforto, às vezes incômodo. Às vezes paz, às vezes caos.

Eu, o vento, que sou incolor e frio, sou calor e sangue, que a mercê da vida, às vezes sou dor, às vezes rotina. as vezes sou morte, às vezes vida...


Eu, o vento, que sou órfão e só, sou carinho e carente, que a mercê da vida, às vezes sou colheita, às vezes plantio. Às vezes sou notado, às vezes esquecido.

Eu, o vento, que sou força e anemia, sou opressor e vítima, que a mercê da vida, às vezes sou vento, simplesmente.

Poema: Mário Nhardes
Arte: Andrew Wyeth

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

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Saudade é não saber.
Não saber o que fazer com os dias
que ficaram mais compridos,
não saber como encontrar tarefas
que lhe cessem o pensamento.



Não saber como frear as lágrimas
diante de uma música,
não saber como vencer a dor de um
silêncio que nada preenche.

Poema: Martha Medeiros
Arte: Gustav Klimt

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

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Persigo um pássaro
e alcanço, apenas,
no muro,
a sombra de um voo.

Poema: Helena Kolody
Arte: Georges Braque

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

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Posso escolher entre ser constantemente ativa e feliz ou
introspectivamente passiva e triste.

Ou posso ficar louca, ricocheteando no meio.

Texto: Sylvia Plath
Arte: Egon Schiele

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

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Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um pais

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

Poema: Mário Benedetti

Cruzemos as pontes em 2011!

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

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- Se ser neurótica é querer duas coisas ao mesmo tempo, então sou completamente neurótica.
Vou ficar voando de uma coisa para outra pelo resto da vida.

- Deixe que eu voe ao seu lado.

Texto: Sylvia Plath
Arte: Marc Chagall

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

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Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para meu sonho naufragar.



Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

Poema: Cecília Meireles
Arte: Jasper Johns

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Dedico esta postagem à todos os meus amigos e amigas
que por aqui passam, seguem, acompanham, comentam,
vocês são especiais e colorem minhas areias desertas.

Feliz Natal!

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

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Eu vou te dar alegria
eu vou parar de chorar
eu vou raiar um novo dia



Eu vou sair do fundo do mar
eu vou sair da beira do abismo
e dançar e dançar e dançar.

Poema: Arnaldo Antunes
Arte: Johanna Harmon

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

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Meu único e nobre coração tem testemunhas
Que despertarão tateantes em todos os países do amor;



E quando o sono cego gotejar sobre os sentidos em vigília,
O coração será sensual, ainda que cinco olhos se quebrem.

Poema: Dylan Thomas
Arte: Gustav Klimt

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

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Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão.



E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim.

Poema: Chico Buarque
Arte: Jorge Luis Alio

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

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Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.



Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

Poema: Ferreira Gullar
Arte: Aldemir Martins

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Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo

o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos

viver em paz e morrer em paz, pois o que da um sentido

à vida dá um sentido à morte.

(Saint Exupéry)

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

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Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;



Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.

Poema: Willian Butler Yeats
Arte: Auguste Pierre Cot

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

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Sente-se diante da vitrola
E esqueça-se das vicissitudes da vida.



Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma.

Poema: Oswald de Andrade
Arte: Auguste Renoir

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sábado, 27 de novembro de 2010

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A constância é contrária à natureza, contrária à vida.



As únicas pessoas completamente constantes são os mortos.

Texto: Aldous Huxley
Arte: Henri Matisse

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

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Se todos os rios são doces, de onde o mar tira o sal?
Como sabem as estações do ano que devem trocar de camisa?
Por que são tão lentas no inverno e tão agitadas depois?
E como as raízes sabem que devem alçar-se até a luz e saudar o ar com tantas flores e cores?
É sempre a mesma primavera que repete seu papel?
E o outono?... ele chega legalmente ou é uma estação clandestina?

Pablo Neruda

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sábado, 20 de novembro de 2010

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Morri antes da hora de ir para a cama,
Mas o meu ventre então bramia,
E senti na nudez de minha queda
Uma cabeça rubra e áspera que emergia flamejante
E o amado dilúvio de seus cabelos.

Poema: Dylan Thomas
Arte: Eugene Delacroix

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domingo, 14 de novembro de 2010

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A sede se extinguiu, a fome já se foi,
E de lado a lado se rompeu o meu coração;
Meu rosto no espelho está desfigurado,
Meus lábios murcharam sufocados pelos beijos,
Meus peitos se tornaram quase ossadas.



Uma jovem alegre me tomou por homem,
Fiz com que se deitasse para contar-lhe o seu segredo
E ao seu lado depus uma rosa escarlate.

Poema: Dylan Thomas
Arte: Marc Chagall

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

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Abrindo um antigo caderno
foi que descobri
antigamente eu era eterno.

Poema: Paulo Leminski
Fotografia: David Wall

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

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Em algum lugar
Sob a pálida luz da lua
Alguém está pensando em mim
E me amando nesta noite

Em algum lugar
Alguém faz uma prece
Para que nos encontremos
E nos alcancemos em algum lugar

E mesmo que eu saiba, da distância que nos separa
Ajuda pensar que podemos estar fazendo pedidos, a mesma estrela brilhante
E quando o vento da noite começa a cantar, uma cantiga de solidão
Ajudará a pensar que estamos dormindo, debaixo do mesmo e enorme céu

Em algum lugar
Se o amor nos ajudar
Então vamos estar juntos
Em algum lugar
Aonde os sonhos, são reais

Letra: Cynthia Weil
Imagem: Retirada do google

À moça do coração tão grande, dona do bolo verde.

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

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Escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.



Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.

Poema: Hélder Muteia
Arte: Marc Chagall

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

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Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
o chapéu na cabeça
Vestiu
a capa de chuva
porque chovia
E saiu



Debaixo de chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
Quanto a mim pus
a cabeça entre as mãos
E chorei.

Poema: Jacques Prévert
Arte: Egon Echiele

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

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Crepúsculo e morte. Morte e beijos.
Beijos dos quais resultam nascimentos.




Consequentemente, morte para outra geração
de observadores de crepúsculos.

Texto: Aldous Huxley
Arte: René Magritte

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Conheci um velho jardineiro que a toda hora me falava num amigo dele. Os dois tinham vivido durante muito tempo como irmãos, antes que a vida os separasse. Tinham bebido juntos o chá da tarde, tinham celebrado as mesmas festas, tinham-se procurado um ao outro para pedirem alguns conselhos ou fazerem confidências. Que, bem vistas as coisas, um pouco tinham a dizer. Até os viam passear, depois de acabado o trabalho, sem pronunciarem uma só palavra. Limitava-se a olhar as flores, os jardins, o céu e as árvores. Mas, se um deles meneava a cabeça e apalpava entre os dedos alguma planta, o outro debruçava-se por sua vez e meneava também a sua. Acabavam de reconhecer o rasto da lagarta. E as flores abertas proporcionavam a qualquer deles o mesmo prazer.

Ora, aconteceu que um mercador contratou um dos dois e o associou por algumas semanas à sua caravana. Mas os ladrões de caravanas e depois as voltas que a vida dá e as guerras entre os impérios e as tempestades e os naufrágios e os lutos e as ruínas como uma pipa levada e trazida pelo mar, empurrando-o de jardim para jardim até aos confins do mundo.

Ora, o meu jardineiro, depois de uma velhice em silêncio , recebeu um dia uma carta do amigo. Sabe Deus quantos anos ela tinha navegado. Sabe Deus que diligências, que cavaleiros, que navios, que caravanas, a tinham pouco a pouco encaminhado, com essa mesma obstinação das milhares de ondas do mar, até ao seu jardim. E, nessa manhã, como ele resplandecia de felicidade e a queria partilhar, pediu-me para ler, como se pede pra ler um poema, a carta que tinha recebido. Ficou-se a ler no meu rosto a emoção da leitura. A verdade é que eram só algumas palavras, porque os jardineiros sempre tinham tido mais habilidade pára cavar do que para escrever. Só consegui ler: "Hoje de manhã, podei as minhas roseiras...". Aquilo me fez meditar sobre o essencial, que sempre me pareceu informulável. E meneei também a cabeça, como eles teriam feito.

Daí em diante, nunca mais o meu jardineiro havia de saber o que é o repouso. Poderias tê-lo ouvido informar-se da geografia, dos correios, das caravanas e das guerras entre os impérios. Três anos mais tarde, chegou por acaso o dia de eu mandar qualquer embaixada ao outro lado da terra. Mandei chamar o meu jardineiro: "se quiseres, podes escrever ao teu amigo." As minhas árvores sofreram um pouco com isso e também os legumes da horta e houve festa entre as lagartas, porque ele passava o dia em casa gatafunhando, rasurando, recomeçando a tarefa, tirando a língua de fora como uma criança debruçada sobre o trabalho. Mas descobria qualquer coisa de urgente a dizer, como que sentia a necessidade de se transportar todo ele, na sua verdade, para a casa do amigo. Precisava construir a sua própria ponte sobre o abismo, alcançar a outra parte de si próprio através do espaço e do tempo. Precisava dizer o seu amor. Por fim, todo corado, veio-me submeter à apreciação a sua resposta e perscrutar outra vez ainda no meu rosto um reflexo da alegriaque havia de iluminar o destinatário. O que ele queria era experimentar em mim o poder das suas confidências. Afinal, apenas confiava ao amigo, na sua escrita aplicada e desajeitada, como que uma oração muito convicta, mas de palavras humildes: "Hoje de manhã, também podei as minhas roseiras...". Na verdade, era o mais importante que ele podia dar a conhecer:(...)

Após a leitura, permaneci calado, meditando sobre o essencial, que eu ia compreendendo cada vez melhor. É que eles, sem o saber, estavam afinal a homenagear-te: era em ti, Senhor, que eles vinham a encontrar, para além das roseiras.

Saint Exupéry

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

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RB diz: "Você teria coragem de admitir que fez a escolha errada?", em matéria de marido. Mas nada em mim se assusta ou se preocupa com a questão. Sinto-me bem com meu marido: gosto do seu calor e seu tamanho e seu estar-aqui, gosto de suas brincadeiras e histórias e das coisas que lê e do modo como adora pescar e andar e aprecia porcos e raposas e animais pequenos e é honesto, nem um pouco vaidoso ou alucinado pela fama, e como demonstra seu contentamento quando cozinho para ele e sua alegria quando faço algo ou um poema, um bolo, e como fica inquieto quando estou infeliz e quer fazer qualquer coisa para me ajudar a vencer as pelejas da alma e amadurecer com coragem e levesa filosófica. Amo seu cheiro gostoso e seu corpo que encaixa no meu como se tivessem feito na mesma fábrica de corpos, com este propósito. O que são apenas partes, distribuídas aqui e ali para este rapaz e aquele outro, fazendo com que eu goste deles em parte, está tudo reunido em meu marido. Portanto, não quero mais sair por aí procurando: não preciso procurar mais nada.

O que ele não tem? Um emprego fixo que dê sete mil por ano. Uma renda própria. Todas as coisas que um monte de dinheiro compra. Ele tem seu cérebro, seu calor, seu talento e amor pelo trabalho, mas não tem fortuna nem renda fixa. Que Horror.
Ele pode ganhar dinheiro e o fará, quando quiser e precisar. Ele não põe isso em primeiro lugar, apenas. Muitas outras coisas são mais importantes, para ele. Por que deveria pôr o dinheiro antes de tudo? Não vejo motivo.

Portanto, ele tem tudo o que eu posso desejar. Eu poderia ter tido dinheiro e homens com empregos fixos. Mas eles eram chatos, doentes, superficiais ou mimados. Eles me davam ânsia, a longo prazo. O que eu queria estava dentro da pessoa, algo capaz de me fazer sentir perfeitamente feliz ao seu lado, mesmo nua no Saara: alguém forte e amoroso de corpo e alma. Simples e rijo.

Então eu reconheci o que queria quando vi. Precisava, após treze longos anos sem homem capaz de receber meu amor por completo e me dar em troca um fluxo firme de amor, um homem que tornasse perfeito o círculo do amor e fizesse tudo ao meu lado. Encontrei um. Não precisei ceder ou aceitar um gentil vendedor de seguros careca ou um professor impotente ou um médico presunçoso idiota, como minha mãe disse que eu deveria. Agi conforme minhas convicções e casei-me com o único homem a quem poderia amar, e quero vê-lo fazer o que bem entender neste mundo, e quero cozinhar e ter filhos e escrever a seu lado. Eu fiz exatamente o que minha mãe disse para não fazer. Eu não cedi. E era, para todos os efeitos, feliz com ele, minha mãe pensava.

Isso deve deixar minha mãe atônita. Como posso ser feliz, tendo feito algo tão perigoso como seguir meu próprio coração e minha mente, apesar de seus conselhos experientes e a desaprovação de Mary-Ellen Chase e da fria censura dos olhos pragmáticos norte-americanos: Mas o que ele faz na vida, afinal? Ele vive, minha gente. É isso que ele faz.

Muito pouca gente faz isso hoje em dia. É arriscado demais. Para começar, é uma tremenda responsabilidade ser você mesmo. É muito mais fácil ser outra pessoa ou ninguém. Ou entregar a alma a deus feito Santa Teresa e dizer: Meu único temor é seguir meus próprios desejos. Faça isso por mim, ó Deus.

Trecho: Sylvia Plath, Diário.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quanto tempo?
Quanto tempo ainda?
Anos, dias, horas?
Quanto?

Quando penso nisso
como me bate o coração.
Meu país é vida
Quanto tempo ainda?
Quanto?

Eu amo tanto o tempo que me resta.
Quero rir, correr, chorar, falar,
e ver e crer, e beber, dançar,
gritar, comer, nadar,
saltar, desobedecer.

Eu não acabei, eu não acabei.
Voar, cantar, partir,
voltar a partir.
Sofrer, amar, eu amo tanto
o tempo que me resta.

Já não sei mais onde
nasci, nem quando.
Sei que não foi há muito
tempo...e que meu país é a vida.

Eu também sei que meu pai dizia...
"O tempo é como o seu pão,
guarde um pouco para amanhã".
Ainda tenho o pão,
ainda tenho tempo, mas, quanto?

Quero brincar ainda,
Quero rir às gargalhadas.
Quero chorar rios de lágrimas.
Quero beber barcos inteiros de
vinho, de Bordeaux e da Itália
Quero dançar, gritar, voar,
nadar em todos os oceanos.

Eu não acabei, eu não acabei.
Quero cantar,
Quero falar até ficar sem voz.
Eu amo tanto o tempo que me resta.
Quanto tempo?
Quanto tempo ainda?
Anos, dias, horas, quanto?

Quero as histórias, as viagens.
Tenho tanta gente a ver,
tantas imagens,
de crianças, de mulheres,
de grandes homens,
de pequenos homens,
engraçados, tristes,
muito inteligentes, bobos.

Que engraçado,
os bobos me rodeiam,
como as folhas entre as rosas.
Quanto tempo?
Quanto tempo ainda?
Anos, dias, horas, quanto?

não me importo, meu amor.
Quando a orquestra parar,
continuarei dançando,
Quando os aviões não mais
voarem, eu voarei sozinho.
Quando o tempo parar,
Eu a amarei ainda.
Eu não sei onde,
Eu não sei como,
mas eu ainda a amarei.
Está bem?

Poema: Desconheço autor

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